Mostrando postagens com marcador meditação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador meditação. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de maio de 2011

Os Benefícios da Meditação Andando

Por

Sayadaw U Silananda



Nos nossos retiros de meditação, os iogues praticam a atenção plena em quatro posturas distintas. Eles praticam a atenção plena ao caminhar, em pé, sentados e quando se deitam. Eles precisam manter a atenção plena em todos os momentos em qualquer postura que estejam. A postura mais comum para a meditação da atenção plena é sentado com as pernas cruzadas, mas como o corpo humano não é capaz de tolerar essa posição por muitas horas, nós alternamos períodos de meditação sentada com períodos de meditação andando. Visto que a meditação andando é muito importante, eu gostaria de discutir a sua natureza, sua importância e os benefícios derivados da sua prática.

A prática da meditação da atenção plena pode ser comparada com o ato de ferver água. Se alguém quer ferver água, primeiro coloca a água na chaleira. Coloca a chaleira sobre o queimador do fogão e depois acende o fogo. Mas se a chama for apagada, mesmo que seja apenas por um instante, a água não irá ferver, mesmo que a chama seja acesa novamente mais tarde. Se a pessoa ficar acendendo e apagando a chama o tempo todo, a água nunca irá ferver. Da mesma forma, se existem intervalos entre os momentos de atenção plena, a pessoa não obterá impulsão e assim não obterá a concentração. É por isso que os iogues nos nossos retiros são instruídos a praticar a atenção plena durante todo o tempo em que estejam despertos, do momento em que acordem pela manhã até quando adormeçam à noite. Por conseguinte, a meditação andando é parte integral do processo contínuo do desenvolvimento da atenção plena.

Infelizmente, tenho ouvido pessoas criticarem a meditação andando, argumentando que elas não conseguem obter dela nenhum benefício ou resultado. Mas foi o próprio Buda quem pela primeira vez ensinou a meditação andando. No Discurso dos Fundamentos da Atenção Plena, o Buda ensinou a meditação andando duas vezes. Na seção intitulada “Posturas,” ele disse que um bhikkhu sabe “Eu estou andando” quando ele está andando, sabe “Eu estou em pé” quando está em pé, sabe “Eu estou sentado”quando está sentado e sabe “Eu estou deitado” quando está deitado. Em uma outra seção chamada “Plena Consciência,” o Buda disse, “um bhikkhu age com plena consciência quando vai para a frente e quando retorna.” Plena Consciência significa o correto entendimento daquilo que é observado. Para entender corretamente aquilo que é observado um iogue necessita obter concentração e para obter concentração, ele precisa aplicar a atenção plena. Portanto, quando o Buda disse, “Bhikkhus, empreguem a plena consciência,” precisamos entender que não somente a plena consciência deve ser empregada, mas também a atenção plena e a concentração. Dessa forma o Buda estava instruindo os meditadores a empregar a atenção plena, a concentração e a plena consciência ao caminhar, ao “ir para a frente e retornar.” A meditação andando é portanto uma parte importante desse processo.

Embora não esteja registrado no sutta que o Buda tenha dado instruções detalhadas e específicas para a meditação andando, acreditamos que ele deva ter dado essas instruções em algum momento. Essas instruções devem ter sido aprendidas pelos seus discípulos e transmitidas ao longo de sucessivas gerações. Além disso, os mestres dos tempos antigos devem ter formulado instruções baseadas na sua própria prática. Na atualidade, temos um conjunto detalhado de instruções sobre como praticar a meditação andando.

Falemos agora especificamente sobre a prática da meditação andando. Se você for um iniciante, o mestre poderá instruí-lo a colocar a atenção plena em apenas uma coisa durante a prática da meditação andando: estar plenamente atento ao ato de dar o passo e ao mesmo tempo fazendo silenciosamente uma notação mental, “andando, andando, andando,” ou “esquerdo, direito, esquerdo, direito.” Você deveria caminhar num ritmo abaixo do normal durante essa prática.

Após algumas horas, ou após um dia ou dois de meditação, você poderá ser instruído para colocar a atenção plena em dois eventos: (i) dar o passo e (ii) abaixar o pé, ao mesmo tempo fazendo a notação mental “andando, abaixando.” Você deverá tentar ficar atento a dois estágios no processo de caminhar: “dar o passo, abaixar; dar o passo, abaixar.” Mais tarde, você poderá ser instruído para colocar a atenção plena em três estágios: (i) levantar o pé; (ii) mover ou empurrar o pé para a frente; e (iii) abaixar o pé. Mais tarde ainda, você poderá ser instruído para colocar a atenção plena em quatro estágios de cada passo: (i) levantar o pé; (ii) movê-lo para a frente; (iii) abaixá-lo; e (iv) tocar ou pressionar o pé no chão. Você será instruído para estar completamente atento e para fazer uma notação mental desses quatro estágios do movimento do pé: “levantar, mover para a frente, abaixar, pressionar o chão.”

No início os iogues acham difícil andar mais devagar, mas como eles são instruídos a prestar bastante atenção a todos os movimentos envolvidos, e assim que eles realmente passem a prestar cada vez mais atenção, eles automaticamente desaceleram. Eles não precisam ser compelidos a desacelerar, pois à medida que eles prestem mais atenção, andar mais devagar lhes ocorre de forma automática. Ao dirigir numa auto estrada, uma pessoa pode estar andando a cem ou cento e dez ou cento e vinte km por hora. Andando nessa velocidade ela não será capaz de ler alguns dos sinais na estrada. Se a pessoa quiser ler os sinais, terá que reduzir a velocidade. Ninguém precisa dizer, “Desacelere!” o motorista irá reduzir a velocidade de forma automática para poder ler os sinais. Da mesma forma, se os iogues quiserem prestar mais atenção aos movimentos de levantar, mover para a frente, abaixar e pressionar o solo, eles irão desacelerar de forma automática. Somente quando eles diminuírem a velocidade poderão estar verdadeiramente atentos e plenamente conscientes desses movimentos.

Embora os iogues prestem bastante atenção e reduzam a velocidade, pode ser que eles não vejam todos os movimentos e estágios com clareza. Os estágios podem não estar ainda bem definidos na mente e pode parecer que eles constituam apenas um movimento contínuo. À medida que a concentração for se tornando mais firme, os iogues irão observar cada vez com mais clareza os diferentes estágios em cada passo; pelo menos os quatro estágios serão distinguidos com mais facilidade. Os iogues saberão com clareza que o movimento de levantar não está misturado com o movimento de levar adiante, e eles saberão que o movimento de levar adiante não está misturado como o movimento de levantar nem com o movimento de pressionar. Eles compreenderão todos os movimentos com clareza e nitidez. Tudo aquilo que tiver sido alvo da atenção plena e consciência estará bastante nítido nas suas mentes.

À medida que os iogues continuam com a prática, eles passarão a observar muito mais. Quando levantarem o pé, experimentarão a leveza do pé. Quando empurrarem o pé para frente, irão notar o movimento de um lugar para outro. Quando abaixarem o pé, eles sentirão o peso do pé, porque o pé fica cada vez mais pesado à medida que desce. Quando eles colocarem o pé no chão, sentirão o toque do calcanhar no chão. Então, junto com a observação de levantar, mover adiante, abaixar e pressionar o chão, os iogues também perceberão a leveza do pé sendo levantado, o movimento do pé, o peso do pé sendo baixado e depois o toque no pé, que é a suavidade ou dureza do pé no chão. Quando os iogues percebem esses processos, ele estão percebendo os quatro elementos essenciais (em Pali, dhatu). Os quatro elementos essenciais são: o elemento terra, o elemento água, o elemento fogo e o elemento ar. Ao prestar bastante atenção a esses quatro estágios da meditação andando, os quatro elementos na sua verdadeira essência são percebidos, não como meros conceitos, mas como processos verdadeiros, como realidades últimas.

Analisemos um pouco mais em detalhe as características dos elementos na meditação andando. No primeiro movimento, levantar o pé, os iogues percebem a leveza, e ao perceber a leveza eles em essência percebem o elemento fogo. Um aspecto do elemento fogo é fazer com que as coisas fiquem mais leves e quando as coisas ficam mais leves, elas sobem. Na percepção da leveza no movimento ascendente do pé, os iogues percebem a essência do elemento fogo. Mas no levantar o pé existe também, além da leveza, movimento. Movimento é um aspecto do elemento ar. Mas a leveza, o elemento fogo, é dominante, portanto podemos dizer que no estágio de levantar o pé o elemento fogo é o primário e o elemento ar, o secundário. Esses dois elementos são percebidos pelos iogues ao prestar bastante atenção ao movimento de levantar o pé.

O próximo estágio é mover o pé para a frente. Ao mover o pé para a frente, o elemento dominante é o elemento ar, porque o movimento é uma das principais características do elemento ar. Portanto, ao prestar bastante atenção ao movimento do pé para a frente na meditação andando, os iogues estão na prática percebendo a essência do elemento ar.

O próximo estágio é o movimento de abaixar o pé. Quando os iogues abaixam o pé existe uma espécie de peso no pé. Peso é uma característica do elemento água, tal como gotejar e ressumar. Quando um líquido é denso, ele ressuma. Portanto quando os iogues percebem o peso do pé, eles percebem a essência do elemento água.

Ao pressionar o pé no chão, os iogues perceberão a dureza ou suavidade do pé no chão. Isso pertence à natureza do elemento terra. Ao prestar bastante atenção à pressão do pé contra o chão, os iogues irão na prática perceber a natureza do elemento terra.

Portanto, vemos que em apenas um passo os iogues podem perceber muitos processos. Eles podem perceber os quatro elementos e a natureza dos quatro elementos. Somente aqueles que praticam podem ter a esperança de ver essas coisas.

À medida que os iogues continuam praticando a meditação andando, eles irão compreender que com cada movimento existe também a mente que registra, a consciência do movimento. Ocorre o movimento de levantar e também a mente que tem consciência desse movimento de levantar. No momento seguinte, existe o movimento para a frente e também a mente que tem consciência desse movimento. Além disso, os iogues irão compreender que ambos, o movimento e a consciência, surgem e desaparecem naquele momento. No momento seguinte, existe o movimento de abaixar e também a consciência desse movimento, e ambos surgem e desaparecem naquele momento de colocar o pé no chão. O mesmo processo ocorre com o pressionar do pé: existe o pressionar e a consciência do pressionar. Dessa forma, os iogues compreendem que junto com os movimentos do pé, também existem os momentos da consciência. Os momentos da consciência são chamados em Pali, nama, mente, e o movimento do pé é chamado rupa, matéria. Dessa forma os iogues percebem a mente e a matéria surgindo e desaparecendo em cada momento. Em um momento ocorre o levantar do pé e a consciência de levantar, e no momento seguinte existe o movimento para a frente e a consciência desse movimento e assim por diante. Eles podem ser compreendidos como um par, mente e matéria, que surgem e desaparecem a cada momento. Assim os iogues avançam para a percepção da ocorrência combinada da mente e matéria em cada momento de observação, isto é, se eles prestarem bastante atenção.

Outra coisa que os iogues irão descobrir é o papel da intenção ao efetuar cada movimento. Eles compreenderão que levantam o pé porque querem fazer isso, movem o pé para diante porque querem fazer isso, abaixam o pé porque querem fazer isso, pressionam o pé no chão porque querem fazer isso. Isto é, eles compreendem que a intenção precede cada movimento. Depois da intenção de levantar, ocorre o levantamento. Eles passam a entender a condicionalidade de todas essas ocorrências – esses movimentos nunca ocorrem por si mesmos, sem condições. Esses movimentos não são criados por alguma divindade ou autoridade e esses movimentos nunca ocorrem sem uma causa. Existe uma causa ou condição para cada movimento, e essa condição é a intenção que precede cada movimento. Essa é mais uma descoberta que os iogues realizam se prestarem bastante atenção.

Quando os iogues compreenderem a condicionalidade de todos os movimentos, e que esses movimentos não são criados por nenhuma autoridade ou deus, então eles compreenderão que os movimentos são criados pela intenção. Eles compreenderão que a intenção é a condição para que o movimento ocorra. Dessa forma a relação entre o condicionamento e o condicionado, de causa e efeito, será compreendida. Com base nessa compreensão os iogues podem remover a dúvida sobre nama e rupa ao compreender que nama e rupa não surgem sem condições. Com o claro entendimento da condicionalidade das coisas e com a transcendência da dúvida sobre nama e rupa, se diz que o iogue alcançou o estágio de um “pequeno sotapanna. "

Um sotapanna é aquele “que entrou na correnteza,” uma pessoa que alcançou o primeiro nível de iluminação. Um “pequeno sotapanna" não é um verdadeiro sotapanna mas se diz que ele tem assegurado o renascimento em um plano de existência feliz, tal como os reinos dos seres humanos e devas. Isto é, um pequeno sotapanna não renasce num dos estados miseráveis, num dos reinos animais ou do inferno. Esse estado de pequeno sotapanna só pode ser alcançado através da prática da meditação andando, prestando bastante atenção aos movimentos envolvidos em um passo. Esse é o grande benefício da prática de meditação andando. Esse estágio não é fácil de ser alcançado, mas uma vez que os iogues o alcancem, eles terão a garantia de renascer em um destino feliz, exceto, é claro, se eles decaírem desse estágio.

Quando os iogues compreenderem a mente e a matéria surgindo e desaparecendo a cada momento, eles irão então compreender a impermanência do processo de levantar o pé e eles também compreenderão a impermanência da consciência desse movimento. A ocorrência do desaparecimento após o surgimento é uma marca ou característica pela qual compreendemos que algo é impermanente. Se queremos determinar se algo é impermanente ou permanente, devemos tentar ver, através do poder da meditação, se aquela coisa está ou não sujeita ao processo de vir a ser e depois desaparecer. Se a nossa meditação for suficientemente poderosa para nos permitir ver o surgimento e desaparecimento dos fenômenos, então podemos concluir que os fenômenos observados são impermanentes. Dessa forma, os iogues observam que existe o movimento de levantar e a consciência desse movimento, e depois essa seqüência desaparece dando origem ao movimento de empurrar para a frente e a consciência de empurrar para a frente. Esses movimentos simplesmente surgem e desaparecem, surgem e desaparecem, e os iogues podem compreender esse processo por si mesmos – eles não precisam aceitar isso baseados na confiança em alguma autoridade externa, nem precisam acreditar na naquilo que uma outra pessoa possa lhe dizer.

Quando os iogues compreendem que a mente e a matéria surgem e desaparecem, eles compreendem que a mente e a matéria são impermanentes. Quando eles vêm que elas são impermanentes, em seguida eles compreendem que elas são insatisfatórias porque estão sempre oprimidas pelo constante surgimento e desaparecimento. Após compreender a natureza impermanente e insatisfatória das coisas, eles observam que não é possível ter o domínio sobre essas coisas; isto, é, os iogues compreendem que não existe um eu ou alma interna que possa fazer com que elas sejam permanentes. As coisas simplesmente surgem e desaparecem de acordo com a lei da natureza. Ao compreender isso, os iogues compreendem a terceira característica dos fenômenos condicionados, a característica de anatta, a característica que mostra que as coisas não possuem um eu. Um dos significados de anatta é o não domínio – significando que nada, nenhuma entidade, nenhuma alma, nenhum poder tem domínio sobre a natureza das coisas. Assim, a esta altura, os iogues compreenderam as três características de todos os fenômenos condicionados: impermanência, sofrimento e o não eu - em Pali, anicca, dukkha, e anatta.

Os iogues podem compreender essas três características observando atentamente o mero levantar do pé e a consciência do levantamento do pé. Ao prestar bastante atenção aos movimentos eles podem ver as coisas surgindo e desaparecendo, e por conseguinte podem ver por si mesmos a natureza impermanente, insatisfatória e não eu de todos os fenômenos condicionados.

Examinemos agora em mais detalhe os movimentos da meditação andando. Suponham que se filmasse o levantamento do pé. Suponham também que o levantamento do pé demorasse um segundo e digamos que a câmera filma trinta e seis quadros por segundo. Depois de filmar, se olharmos os quadros separados, nos daremos conta que dentro do que pensávamos ser um movimento de levantar, houve na verdade trinta e seis movimentos. A imagem em cada quadro é ligeiramente distinta das imagens dos demais quadros, embora a diferença seja tão sutil que mal possa ser notada. Mas e se a câmera pudesse filmar mil quadros por segundo? Então haveriam mil movimentos em apenas um movimento de levantar, embora fosse quase impossível diferenciar os movimentos. Se a câmera pudesse filmar um milhão de quadros por segundo – que é impossível na atualidade, mas que talvez algum dia seja – então haveria um milhão de movimentos naquilo que pensávamos ser apenas um movimento.

Nosso esforço na meditação andando é de ver os nossos movimentos com a mesma precisão com a qual a câmera os vê, quadro a quadro. Também queremos observar a consciência e a intenção que precede cada movimento. Também podemos apreciar o poder da sabedoria e insight do Buda, por meio dos quais ele, na verdade, viu todos os movimentos. Quando usamos a palavra “ver” ou “observar” para nos referirmos à nossa própria situação, queremos dizer que vemos diretamente e também por inferência; talvez não sejamos capazes de ver diretamente todos os milhões de movimentos tal como o Buda.

Antes que os iogues comecem a praticar a meditação andando, eles talvez pensem que um passo é apenas um movimento. Após meditar sobre esse movimento, eles observam que existem pelo menos quatro movimentos, e se eles se aprofundarem, irão compreender que mesmo um desses quatro movimentos consiste de milhões de movimentos muito pequenos. Eles vêm nama e rupa, mente e matéria, surgindo e desaparecendo, como impermanentes. Através da nossa percepção comum, não somos capazes de ver a impermanência das coisas porque a impermanência está escondida pela ilusão da continuidade. Pensamos que vemos apenas um movimento contínuo, mas se olharmos com cuidado veremos que a ilusão da continuidade pode ser rompida. Pode ser rompida através da observação direta dos fenômenos físicos parte por parte, segmento por segmento, como eles se originam e se desintegram. O valor da meditação está na nossa habilidade em remover o manto da continuidade de forma a descobrir a verdadeira natureza da impermanência. Os iogues podem descobrir a natureza da impermanência diretamente, através do seu próprio esforço.

Depois de compreender que as coisas são compostas de segmentos, de que elas ocorrem em partes e depois de observar esses segmentos um a um, os iogues irão compreender que realmente não existe nada neste mundo a que se apegar, nada a cobiçar. Se virmos algo, que um dia consideramos belo, com falhas, decaindo e desintegrando, perderemos interesse por ele. Por exemplo, podemos ver um bela pintura numa tela. Pensamos na pintura e na tela conceitualmente como um todo, uma coisa sólida. Mas se colocássemos a pintura sob um microscópio poderoso, veríamos que a pintura não é sólida – ela possui muitos buracos e espaços. Depois de ver que a pintura está composta em grande parte por espaços, perderíamos interesse por ela e abandonaríamos o nosso apego por ela. Os físicos modernos conhecem bem essa idéia. Eles observaram, através de instrumentos poderosos, que a matéria não passa de partículas vibrando e energia em constante mutação – não existe nada de sólido nela. Compreendendo essa impermanência sem fim, os iogues compreendem que não existe realmente nada que cobiçar, nada que se apegar em todo o mundo dos fenômenos.

Agora podemos compreender as razões para a prática da meditação. Praticamos meditação porque queremos remover o apego e a cobiça pelos objetos. É compreendendo as três características da existência – impermanência, sofrimento e o não eu – que removemos a cobiça. Queremos remover a cobiça porque queremos deixar de sofrer. Enquanto existir a cobiça e o apego haverá sempre o sofrimento. Se não quisermos sofrer, precisamos remover a cobiça e o apego. Precisamos compreender que todas as coisas são apenas mente e matéria surgindo e desaparecendo, que as coisas não possuem substância. Uma vez que compreendamos isso, seremos capazes de remover o nosso apego às coisas. Enquanto não compreendermos isso, não importa quantos livros leiamos, ou palestras ouçamos, ou o quanto falemos a respeito da remoção do apego, não seremos capazes de remover o apego. É necessário ter a experiência direta de que todas as coisas condicionadas possuem as marcas das três características.

Portanto precisamos prestar bastante atenção quando estamos caminhando, igual quando estivermos sentados ou deitados. Não estou dizendo que apenas a meditação andando possa nos proporcionar a realização última e a habilidade para remover o apego completamente, mas ela é uma prática válida tal como a meditação sentada ou qualquer outro tipo de meditação vipassana (insight). A meditação andando conduz ao desenvolvimento espiritual. É tão poderosa quanto a atenção plena na respiração ou a atenção plena na expansão e contração do abdomen. É uma ferramenta eficiente para nos auxiliar na remoção das impurezas mentais. A meditação andando pode nos ajudar a obter o insight da natureza das coisas, e por isso deveríamos praticá-la com a mesma diligência com que praticamos a meditação sentada ou qualquer outro tipo de meditação.

Que vocês, através da prática da meditação vipassana em todas as posturas, incluindo andando, possam alcançar a completa purificação nesta mesma vida!

domingo, 1 de maio de 2011

Nosso Verdadeiro Lar
Uma palestra para uma discípula leiga idosa que está morrendo


Ajaan Chah




Agora determine que a sua mente ouça o Dhamma. Durante o período em que eu estiver falando, preste atenção às minhas palavras como se o próprio Buda estivesse sentado à sua frente. Feche os olhos e sente-se confortavelmente, componha a sua mente e faça com que ela foque a atenção em um só ponto. Com humildade permita que a Jóia Tríplice da sabedoria, verdade e pureza encontre um lugar no seu coração como forma de demonstrar o seu respeito pelo Iluminado.

Hoje eu não trouxe nada material, com substância para oferecer-lhe, somente o Dhamma, os ensinamentos do Buda. Ouça bem. Você precisa entender que mesmo o próprio Buda, com o seu grande depósito de virtude acumulada, não pôde evitar a morte física. Quando ele alcançou a velhice, ele abandonou o seu corpo e soltou o seu pesado fardo. Agora você também precisa aprender a estar satisfeita com os muitos anos em que esteve sujeita a esse corpo. Você deveria sentir que já chega.

Você pode compará-lo a utensílios de cozinha que teve por muito tempo - suas xícaras, pires, pratos e assim por diante. Quando você os comprou eles estavam limpos e brilhantes mas agora após usá-los por tanto tempo, eles mostram os sinais do tempo.

Alguns já estão quebrados, outros desapareceram e aqueles que sobraram estão se deteriorando; eles não possuem uma forma estável, e faz parte da sua natureza que seja assim. Com o corpo é o mesmo - esteve continuamente mudando desde o dia em que você nasceu, através da infância e adolescência, até agora quando alcançou a velhice. Você precisa aceitar isso.

O Buda disse que os fenômenos, (sankharas), quer sejam internos, do corpo, ou externos, são desprovidos de um eu, a mudança faz parte da natureza deles. Contemple essa verdade até que você a veja claramente.

Esse mesmo pedaço de carne que aqui está deitado em decadência é saccadhamma, a verdade. A verdade deste corpo é saccadhamma, e esse é o ensinamento imutável do Buda. O Buda nos ensinou a olhar para o corpo, contemplá-lo e aceitar a sua natureza. Precisamos estar em paz com o corpo, não importando o estado em que ele esteja. O Buda ensinou que devemos nos assegurar que somente o corpo esteja aprisionado e não permitir que a mente seja aprisionada junto.

Agora, à medida que o seu corpo começa a perder vitalidade e deteriorar pela idade, não resista a isso, mas não permita que a sua mente se deteriore junto com ele. Mantenha a mente separada. Energize a sua mente compreendendo a verdade de como as coisas são. O Buda ensinou que essa é a natureza do corpo, não pode ser de outra forma: tendo nascido, ele envelhece e se enferma e depois morre. Essa é uma grande verdade com a qual você está se deparando agora. Olhe para o corpo com sabedoria e entenda isso.

Se a sua casa estiver inundada ou completamente queimada, qualquer que seja o perigo que a ameace, faça com que seja somente com a casa. Se ocorrer uma enchente, não permita que ela inunde a sua mente. Se ocorrer um incêndio, não permita que ele queime o seu coração. Deixe que seja somente a casa, aquilo que é externo a você, fique inundada e queimada. Permita que a mente se liberte dos seus apegos. Este é o momento certo.

Você já está viva há muito tempo. Os seus olhos já viram inumeráveis formas e cores, os seus ouvidos ouviram tantos sons, você teve incontáveis experiências. E isso é tudo que elas foram - somente experiências. Você comeu comidas deliciosas, e todos os sabores deliciosos foram somente sabores deliciosos, nada mais. Os sabores desagradáveis foram somente sabores desagradáveis, isso é tudo. Se o olho vê uma forma bonita, isso é tudo, somente uma forma bonita. Uma forma feia é somente uma forma feia. O ouvido ouve um som que hipnotiza, melodioso e não é nada além disso. Um som áspero, sem harmonia é somente isso.

O Buda disse que pobre ou rico, jovem ou velho, humano ou animal, nenhum ser neste mundo pode manter a si mesmo em um mesmo estado por muito tempo, tudo experimenta mudança. Esse é um fato da vida para o qual não há remédio.

Mas o Buda disse que o que podemos fazer é contemplar o corpo e a mente de tal forma a ver a sua impersonalidade, ver que nenhum deles é "eu" ou "meu". Eles possuem meramente uma realidade provisória. É como esta casa: ela é sua somente de forma nominal, você não a pode levar para nenhum lugar. Ocorre o mesmo com a sua fortuna, as suas posses e a sua família - elas são todas suas somente no nome, na verdade elas não lhe pertencem, elas pertencem à natureza.

Agora essa verdade não se aplica somente a você, todos estão na mesma posição, mesmo o Buda e os seus discípulos iluminados. Eles diferem de nós apenas num aspecto, na aceitação das coisas do modo como elas são, eles viram que não pode ser de outro modo.

Portanto o Buda nos ensinou a mapear e examinar este corpo, das solas dos pés até o topo da cabeça e em seguida até as solas dos pés novamente. Dê uma olhada no corpo. Que tipo de coisas você vê? Existe algo que seja intrinsecamente limpo? Você pode encontrar alguma essência permanente?

Todo este corpo está constantemente se degenerando e o Buda nos ensinou a ver que ele não nos pertence. Faz parte da natureza que o corpo seja assim porque todos os fenômenos condicionados estão sujeitos à mudança. De que outra forma poderia ser?

Na verdade, não existe nada de errado com o corpo. Não é o corpo que faz com que você sofra, mas sim a sua forma de pensar incorreta. Quando você vê o certo de maneira errada, inevitavelmente haverá confusão. É como a água de um rio. Ela naturalmente flui quando há uma inclinação, ela nunca flui em sentido contrário, assim é a natureza.

Se uma pessoa estivesse às margens de um rio e vendo a correnteza fluindo rapidamente, tolamente desejasse que as águas fluíssem em sentido contrário, ela iría sofrer. O que quer que ela estivesse fazendo, a sua maneira errada de pensar não lhe daria paz. Ela ficaria infeliz devido ao seu entendimento incorreto, pensando contra a correnteza. Se ela tivesse o entendimento correto ela veria que a água deve inevitavelmente fluir de acordo com a inclinação, e até que ela entenda e aceite esse fato, a pessoa ficará agitada e preocupada.

O rio que flui de acordo com a inclinação é igual ao seu corpo. Tendo sido jovem seu corpo envelheceu e agora está fluindo tranqüilamente para a morte. Não fique desejando que seja diferente, não é algo que você tem o poder de remediar. O Buda nos disse para ver as coisas como elas são e então soltar o nosso apego em relação a elas. Tome essa noção de abandono como o seu refúgio.

Sustente a meditação, mesmo que você se sinta cansada e exausta. Deixe que a sua mente permaneça com a respiração. Respire fundo algumas vezes e depois fixe a mente na respiração usando a palavra "Buddho" como mantra. Faça disso uma prática rotineira.

Quanto mais exausta você estiver, mais sutil e focalizada deve ser a sua concentração, assim você poderá suportar as sensações dolorosas que surgem. Quando você começar a se sentir cansada, faça com que todo o seu pensamento pare, que a mente se recupere e se volte para conhecer a respiração. Mantenha a recitação interior: "Bud-dho, Bud-dho".

Solte tudo que é externo. Não se apegue a pensamentos acerca dos seus filhos e parentes, não se apegue a absolutamente nada. Solte. Deixe que a mente se unifique em um só ponto e permita que essa mente acalmada permaneça com a respiração. Faça com que a respiração seja o seu único objeto de interesse. Concentre até que a mente se torne cada vez mais sutil, até que as sensações sejam insignificantes e que haja uma grande clareza e vivacidade interiores.

Então quando surgirem sensações dolorosas elas irão gradualmente ceder por si mesmas. Finalmente, você irá olhar para a respiração como se fosse um parente que a tivesse vindo visitar.

Quando um parente vai embora, nós o acompanhamos até a porta. Esperamos até que já não o possamos ver mais e então voltamos para dentro. Observamos a respiração da mesma forma. Se a respiração é grosseira, nós sabemos que ela é grosseira. Se ela é sutil, sabemos que é sutil. À medida que ela vai se tornando cada vez mais discreta nós a acompanhamos, simultaneamente despertando a mente.

Eventualmente a respiração desaparece por completo e tudo o que resta é a sensação de estar alerta. A isto se denomina encontrar o Buda. Temos aquele entendimento cristalino que é chamado de "Buddho", aquele que sabe, aquele que está desperto, aquele que irradia. É encontrar e permanecer com o Buda, com conhecimento e clareza.

Pois foi somente o Buda histórico de carne e osso que realizou o parinibbana; o verdadeiro Buda, o Buda que é o conhecimento claro e luminoso, nós podemos experimentar e realizar mesmo hoje e quando assim fizermos, o coração é um só.

Portanto, solte, deixe tudo de lado, tudo exceto o conhecimento. Não se iluda se visões ou sons surgirem na sua mente durante a meditação. Deixe-os de lado. Não se apegue a absolutamente nada. Permaneça apenas com essa atenção não dual. Não se preocupe com o passado ou o futuro, fique tranqüila e você irá alcançar o lugar onde não existe progresso, recuo e nem parada, onde não existe nada para se agarrar ou apegar.

Porque? Porque não existe "eu" ou "meu". Tudo se foi. O Buda nos ensinou a que fiquemos vazios desse modo, a não carregar nada conosco. Conhecendo e tendo conhecido, solte.

Realizar o Dhamma, o caminho da libertação do ciclo de nascimento e morte, é uma tarefa que todos temos que realizar sozinhos. Portanto, continue tentando soltar tudo e entender os ensinamentos. Coloque esforço real na sua contemplação. Não se preocupe com a sua família. No momento eles são o que são, no futuro serão como você. Não existe ninguém neste mundo que possa escapar a esse destino. O Buda nos disse para deixar de lado tudo aquilo que não possui uma essência verdadeira, permanente. Se você colocar tudo de lado, irá ver a verdade, se você não fizer isso, não irá vê-la. Assim é como é, igual para todos, portanto não se preocupe e não se agarre a nada.

Mesmo que você se dê conta de que está pensando, não há problema, contanto que você pense sabiamente. Não pense de maneira tola. Se você pensar nos seus filhos, pense neles com sabedoria, não de forma tola. Qualquer coisa que chame a atenção da mente, pense e entenda aquela coisa com sabedoria, consciente da sua natureza. Se você entende alguma coisa com sabedoria, então você a solta e não há sofrimento. A mente estará brilhante, feliz e em paz, e evitando distrações ela estará unificada. Neste momento o que lhe pode ajudar e apoiar é a sua respiração.

Essa é uma tarefa sua, de ninguém mais. Deixe que os outros façam as tarefas deles. Você tem a sua própria tarefa e responsabilidade e você não precisa assumir aquelas da sua família. Não assuma nada mais, solte tudo. Esse ato de soltar irá acalmar a sua mente. A sua única responsabilidade agora é de focar a sua mente e fazer com que ela fique em paz. Deixe todo o demais para os outros. Formas, sons, odores, sabores - deixe que os outros tomem conta disso. Deixe tudo isso de lado e faça o seu próprio trabalho, cumpra a sua responsabilidade. O que quer que surja na sua mente, seja medo ou dor, medo da morte, ansiedade pelos outros ou o que seja, diga-lhes: "Não me perturbem. Vocês não são mais minha responsabilidade". Apenas diga isso para si mesma quando você vir esses dhammas surgindo.

A que se refere a palavra "dhamma" ? Tudo é dhamma. Não existe nada que não seja dhamma. E o que seria "mundo" ? O mundo é exatamente o estado mental que a está deixando agitada neste mesmo momento. "O que essa pessoa irá fazer? O que aquela pessoa irá fazer? Quando eu estiver morta quem irá cuidar deles? Como eles irão se arranjar?" Isso tudo é "o mundo". Mesmo o mero surgimento de um pensamento de medo ou dor, é o mundo.

Jogue o mundo fora! O mundo é assim mesmo. Se você permitir que ele surja na mente e domine a consciência então a mente se tornará nebulosa e não poderá ver a si mesma. Portanto, para tudo que surgir na mente, simplesmente diga: "Não diz respeito a mim. É impermanente, insatisfatório e não-eu."

Pensar que você gostaria de viver por muito tempo a fará sofrer. Mas pensar que você gostaria de morrer logo ou muito rapidamente também não é correto, é sofrimento não é? As condições não nos pertencem, elas seguem as suas próprias leis da natureza. Você não pode fazer nada acerca do modo como o corpo é. Você pode embelezá-lo um pouco, fazer com que seja atraente e limpo durante algum tempo, tal como as garotas que passam batom e deixam as unhas crescer. Porém, quando a velhice chega, todos estão no mesmo barco. O corpo é assim, você não pode fazer com que seja de outro modo. Mas o que você pode melhorar e embelezar é a mente.

Qualquer pessoa pode construir uma casa de madeira e tijolos mas o Buda ensinou que esse tipo de casa não é o nosso verdadeiro lar, é nosso só nominalmente. É uma casa no mundo e segue as regras do mundo. O nosso verdadeiro lar é a paz interior. Uma casa pode muito bem ser bonita mas não tem muita paz. Existe esta preocupação e depois aquela, esta ansiedade e depois aquela. Portanto dizemos que ela não é o nosso verdadeiro lar, está fora de nós, cedo ou tarde vamos ter que abrir mão dela. Não é um lugar em que podemos viver permanentemente porque na verdade não nos pertence, é parte do mundo. Com o nosso corpo ocorre o mesmo; assumimos que ele seja parte do eu, que seja "eu" e "meu", mas na verdade não é nada disso, é uma outra casa do mundo. O seu corpo seguiu o seu curso natural do nascimento até agora, está velho e enfermo e você não pode proibi-lo disso, assim é como é. Querer que seja diferente é tão tolo quanto querer que um pato seja uma galinha. Quando você vê que isso é impossível, que um pato tem que ser um pato, e que uma galinha tem que ser uma galinha, que os corpos têm que envelhecer e morrer, você terá energia e força. Não importa quanto você queira que o corpo se mantenha e dure por muito tempo, isso não irá ocorrer.

O Buda disse:

Anicca vata sankhara
Uppada vayadhammino
Uppajjhitva nirujjhanti
Tesam vupasamo sukho.

As formações são impermanentes,
sujeitas a surgir e cessar.
Tendo surgido elas cessam -
a tranqüilização delas é uma bênção.

A palavra "sankhara" refere-se a este corpo e mente. Os sankharas são impermanentes e instáveis, tendo surgido eles desaparecem, tendo aparecido eles cessam, e mesmo assim todos querem que eles sejam permanentes. Isso é uma tolice. Olhe para a respiração. Tendo entrado, ela sai, assim é a natureza, assim é como deve ser. A inspiração e a expiração têm que se alternar, tem que haver mudança. Os sankharas existem através da mudança, você não poderá evitá-lo. Apenas pense: você poderia expirar sem haver inspirado? Você se sentiria bem? Ou você poderia somente inspirar? Queremos que as coisas sejam permanentes, mas elas não podem ser, é impossível. Uma vez que tenhamos inspirado, é necessário expirar, quando expiramos é necessário inspirar outra vez, e assim é a natureza, não é? Tendo nascido, envelhecemos e ficamos enfermos e depois morremos e isso é perfeitamente natural e normal. Porque os sankharas fizeram a sua parte, porque a expiração e a inspiração se alternaram dessa forma, que a raça humana ainda está aqui hoje.

Assim que nascemos, estamos mortos. Nosso nascimento e morte são somente uma coisa. Tal como uma árvore: quando há uma raiz tem que haver galhos. Quando há galhos tem que haver uma raiz. Não se pode ter uma sem a outra. É um pouco engraçado ver como face à morte as pessoas ficam tão angustiadas e distraídas, chorosas e tristes e no nascimento tão felizes e contentes. É a delusão, ninguém nunca vê isso com clareza. Eu penso que se você realmente quer chorar, então seria melhor fazê-lo quando alguém nasce. Pois na verdade o nascimento é morte, morte é nascimento, a raiz é o galho, o galho a raiz. Se você precisa chorar, chore pela raiz, chore pelo nascimento. Veja com atenção: se não houvesse nascimento não haveria morte. Você pode entender isso?

Não pense muito. Somente pense: "Assim é como as coisas são". É a sua tarefa, a sua responsabilidade. Neste exato momento ninguém pode ajudá-la, não há nada que a sua família e as suas posses possam fazer por você. A única coisa que lhe pode ajudar é o entendimento correto.

Portanto não vacile. Solte tudo. Jogue tudo fora.

Mesmo que você não queira soltar, tudo está indo embora de qualquer jeito. Você pode ver como todas as diferentes partes do seu corpo estão tentando escapar? Tome o seu cabelo: quando você era jovem ele era grosso e preto, agora ele está caindo. Está indo embora. Os seus olhos costumavam ser bons e fortes e agora eles estão fracos, a sua vista embaçada. Quando os órgãos já não agüentam mais, eles vão embora, esta não é a casa deles. Quando você era uma criança os seus dentes eram sadios e firmes agora eles estão balançando, talvez você tenha dentadura. Os seus olhos, ouvidos, nariz, língua - tudo está tentando ir embora porque esta não é a casa deles. Você não pode fazer uma morada permanente em um sankhara, você pode permanecer por pouco tempo e depois tem que partir. O mesmo que um inquilino observando a sua pequena casa com os olhos enfraquecidos. Os seus dentes já não estão bem, os seus ouvidos já não estão bem, o seu corpo já não está saudável, todos estão partindo.

Portanto você não precisa se preocupar com nada, porque este não é o seu verdadeiro lar, é somente um abrigo temporário. Tendo vindo a este mundo, você deveria contemplar a sua natureza. Tudo o que existe está se preparando para desaparecer. Olhe para o seu corpo. Existe algo que ainda se encontre na sua forma original? A sua pele está como costumava estar? O seu cabelo? Não é o mesmo, é? Para onde foi tudo? Assim é a natureza, como as coisas são. Quando o tempo chega, as formações seguem o seu próprio curso. Não há nada neste mundo com o qual se possa contar - é um ciclo interminável de perturbações e problemas, prazeres e dores. Não há paz.

Quando não temos um verdadeiro lar somos como um viajante sem rumo, indo em uma direção por algum tempo e depois para outra direção, parando por algum tempo para depois continuar outra vez. Até que regressemos ao nosso verdadeiro lar nos sentimos desconfortáveis com o que quer que estejamos fazendo, da mesma forma como uma pessoa que saiu do seu vilarejo para uma viagem. Somente quando regressa outra vez para casa é que ela pode realmente relaxar e estar em paz.

Em nenhum lugar do mundo pode ser encontrada a paz verdadeira. Os pobres não têm paz e nem os ricos. Os adultos não têm paz, as crianças não têm paz, aqueles com pouca escolaridade não têm paz e nem os que têm muito estudo. Não existe paz em lugar nenhum. Essa é a natureza do mundo.

Aqueles que possuem poucas posses sofrem e da mesma forma aqueles que possuem muitas. Crianças, adultos, velhos, todos sofrem. O sofrimento de ser velho, o sofrimento de ser jovem, o sofrimento de ser rico e o sofrimento de ser pobre - nada além de sofrimento.

Quando você contempla as coisas dessa forma você vê anicca, impermanência e dukkha, insatisfação. Porque as coisas são impermanentes e não trazem satisfação? É porque são anatta, não-eu.

Ambos, o seu corpo que está aqui deitado enfermo e dolorido e a mente que está consciente da sua enfermidade e dor, são denominados dhammas. Aquilo que é desprovido de forma, os pensamentos, sensações e percepções são denominados namadhamma. Aquilo que está atormentado com dores e desconfortos é denominado rupadhamma. O material é dhamma e o não material é dhamma. Portanto vivemos com dhammas, no dhamma, nós somos dhamma. Na verdade não existe um eu que pode ser encontrado em nenhum lugar, só existem dhammas que estão continuamente surgindo e desaparecendo, que é a sua natureza. A cada momento estamos experimentando o nascimento e a morte. Assim é como as coisas são.

Quando pensamos no Buda, da forma tão verdadeira como ele falou, sentimos o quanto ele é digno de que o saudemos, honremos e respeitemos. Sempre que vemos a verdade de algo, vemos os seus ensinamentos, mesmo sem nunca, na verdade termos praticado o Dhamma. Porém mesmo que tenhamos conhecimento dos seus ensinamentos, que os tenhamos estudado e praticado, mas ainda sem ver a verdade que eles contêm, então ainda não teremos um lar.

Portanto, compreenda esse ponto de que todas as pessoas, todas as criaturas, estão prestes a ir embora. Quando os seres viverem um certo tempo eles seguirão o seu caminho. O rico, o pobre, o jovem, o velho, todos os seres irão experimentar essa mudança.

Quando você se der conta de que o mundo é assim, você sentirá que é um lugar que incomoda muito. Quando você se der conta de que não há nada estável ou sólido em que você possa confiar, você se sentirá incomodado e desencantado. Sentir-se desencantado no entanto não significa que você terá aversão. A mente estará clara. Ela vê que não existe nada que possa ser feito para remediar esse estado de coisas, assim é o mundo. Sabendo disso, você pode soltar o apego, soltar com a mente que não está feliz nem triste mas em paz com os sankharas, pois vê com sabedoria a sua natureza de mudança constante.

Anicca vata sankhara – todas as formações são impermanentes. Colocando de maneira simples: impermanência é o Buda. Se vemos um fenômeno impermanente com clareza, veremos que ele é permanente, permanente no sentido de que a sua sujeição à mudança é constante. Essa é a permanência que os seres vivos possuem. Existe transformação contínua, da infância através da juventude até a velhice, e essa mesma impermanência, essa disposição à mudança é fixa e permanente. Se você encará-lo dessa forma o seu coração estará em paz. Não é somente você que tem que passar por isso, são todos.

Quando você considera as coisas dessa forma, você as verá como um incômodo e o desencantamento irá surgir. O seu deleite com o mundo dos prazeres sensuais irá desaparecer. Você verá que se tiver muitas coisas, terá que abandonar muitas coisas; se tiver poucas, abandonará poucas. A riqueza é somente riqueza, uma vida longa é somente uma vida longa, elas não têm nada de especial.

O que é importante é que façamos o que o Buda nos ensinou e que construamos o nosso lar, construi-lo utilizando o método que eu estive lhe explicando. Construa o seu lar. Solte tudo. Solte até que a mente alcance a paz que está livre de avançar, livre de retroceder e livre de ficar imóvel. O prazer não é o nosso lar, a dor não é o nosso lar. O prazer e a dor, ambos, decaem e desaparecem.

O Grande Mestre viu que todos os sankharas são impermanentes e por isso ele nos ensinou a soltar o nosso apego por eles. Quando chegarmos ao fim das nossas vidas, não teremos escolha de qualquer maneira, não seremos capazes de levar nada conosco. Portanto não seria melhor se soltar das coisas antes disso? Elas são somente um fardo pesado que carregamos; porque não se desfazer desse fardo agora? Porque o esforço de carregá-lo conosco? Solte tudo, relaxe e deixe que a sua família tome conta de você.

Aqueles que cuidam de um enfermo, cultivam a bondade e a virtude. Alguém que esteja doente e que oferece aos outros essa oportunidade não deveria dificultar ainda mais as coisas para eles. Se existe dor ou algum outro problema, diga-lhes e mantenha a mente em um estado saudável. Aquele que estiver cuidando dos pais deve preencher a sua mente com cordialidade e bondade e não se deixar pegar pela aversão. Essa é a ocasião em que você pode pagar o seu débito para com eles. Desde o seu nascimento através da infância, conforme você crescia, você esteve na dependência dos seus pais. Estamos aqui hoje porque as nossas mães e pais nos ajudaram de tantas formas. Devemos a eles muita gratidão.

Portanto hoje, todos vocês, crianças e parentes aqui reunidos, juntos, vejam como os seus pais se tornam as suas crianças. Antes vocês eram as crianças deles; agora eles são as crianças de vocês. Eles ficam cada vez mais velhos até que se convertem em crianças novamente. A sua memória fica falha, os olhos já não vêm tão bem e os seus ouvidos não escutam, às vezes misturam as palavras. Não deixem que isso os perturbe. Todos vocês que cuidam dos doentes têm que aprender a soltar. Não se agarrem às coisas, simplesmente soltem-nas e que sigam o seu próprio curso. Quando uma criança é desobediente, às vezes os pais permitem que ela faça o que quer como forma de manter a paz, para fazê-la feliz. Agora os seus pais são como essa criança. A memória e a percepção deles está confusa. Certas vezes eles confundem os seus nomes, ou vocês lhes pedem para trazer uma xícara e eles trazem um prato. É normal, não fiquem transtornados por isso.

Que o paciente possa se lembrar da bondade daqueles que cuidam dele e pacientemente suporte as sensações de dor. Faça um esforço, não permitindo que a mente se torne dispersa e agitada e não dificultando as coisas para quem está cuidando de você. Permita que aqueles que cuidam dos doentes preencham a sua mente com virtude e bondade. Que não tenham aversão pelo aspecto repugnante do trabalho, de limpar o catarro e a fleuma ou a urina e excremento. Façam o melhor possível. Todos na família podem ajudar.

Eles são os únicos pais que você possui. Eles lhe deram a vida, eles foram os seus mestres, suas enfermeiras e seus médicos - eles foram tudo para você. Eles os criaram, educaram, compartilharam as suas posses com você, fizeram de você o herdeiro, esse é o grande benefício feito pelos seus pais. Como resultado, o Buda ensinou as virtudes de kataññu e katavedi, conhecer a nossa dívida de gratidão e tentar repagá-la. Essas duas virtudes são complementares. Se os nossos pais estão passando por necessidades, se não estão bem ou enfrentando dificuldades, então fazemos o melhor possível para ajudá-los. Isto é kataññu-katavedi, é uma virtude que mantem o mundo. Previne que as famílias se separem, faz com que permaneçam estáveis e harmoniosas.

Hoje eu lhes trouxe o Dhamma como um presente nesta ocasião de enfermidade. Não tenho coisas materiais para lhes dar; parece que já existe abundância dessas coisas na casa e assim eu lhes dou o Dhamma, algo que possui um valor de longa duração, algo que vocês nunca conseguirão esgotar. Tendo recebido de mim, vocês podem passá-lo adiante para tantos outros que quiserem e ele nunca será esgotado. Assim é a natureza da Verdade. Estou feliz por dar-lhes este presente do Dhamma e espero que lhes dê força para lidar com a sua dor.

sábado, 30 de abril de 2011

Des-percepção


Ajaan Thanissaro



A meditação nos ensina sobre o poder das nossas percepções. Passamos a ver como os rótulos que aplicamos às coisas, as imagens com as quais visualizamos as coisas, têm uma enorme influência naquilo que vemos e como isso pode nos oprimir com sofrimento e estresse. À medida que a meditação evolui, no entanto, ela proporciona as ferramentas que necessitamos para nos libertarmos dessa influência.

No início, quando você se dá conta pela primeira vez do poder da percepção, você pode facilmente se sentir oprimido pelo grau de abrangência que ele possui. Suponha que você esteja focado na respiração.

Chega um ponto em que você irá se perguntar se o seu foco está na respiração em si ou na idéia da respiração. Uma vez que esta questão surja, a reação normal é tentar contornar a idéia em busca da sensação crua que está por trás da idéia.

Mas se você for realmente sensível ao fazer isso, irá observar que está simplesmente substituindo uma caricatura da respiração por outra um tanto mais sutil. Até mesmo a sensação crua da respiração estará moldada pela forma como você conceitua a sensação crua.

Não importa o quanto você se esforce para identificar com exatidão uma experiência da respiração que não tenha sido filtrada, ainda assim você notará que ela estará moldada pela sua idéia do que é na verdade a respiração. Quanto mais você perseguir a realidade da respiração, mais ela aparecerá como uma miragem.

O truque, nesse caso, é reverter esse fato em nosso benefício. Afinal, você não está meditando para chegar até a respiração. Você está meditando para compreender os processos que conduzem ao sofrimento para poder dar um fim neles. A maneira como você se relaciona com as suas percepções é parte desses processos, estão é isso que você quer ver. Você tem que tratar a sua experiência com a respiração não como um fim em si mesmo, mas como uma ferramenta para compreender o papel da percepção na criação do sofrimento e estresse.

Você faz isso através da des-percepção: questionando as suas suposições acerca da respiração, mudando essas suposições de forma deliberada e observando o que acontece como resultado. Agora, sem o contexto apropriado, a des-percepção pode com facilidade se perder em abstrações aleatórias.

Então você adota a prática da concentração como contexto, provendo a des-percepção tanto com um rumo geral, como com tarefas específicas que a forçam a confrontar as premissas operativas que na realidade moldam a sua experiência do presente.

O rumo geral está em tentar trazer a mente para níveis cada vez mais profundos e duradouros de tranqüilidade, eliminando assim níveis cada vez mais sutis de estresse.

Você não estará tentando verificar quais percepções da respiração caracterizam-na de modo mais verdadeiro, mas, sim, quais funcionam melhor e em que situações, para eliminar o estresse. A objetividade que você está buscando não é a objetividade da respiração, mas a objetividade da causa e efeito.

As tarefas específicas que ensinam essas lições principiam com a tarefa de tentar fazer com que a mente fique focada confortavelmente por longos períodos de tempo na respiração – e nesse ponto exato você se depara com duas premissas operativas: O que significa respirar? O que significa permanecer focado?

Em geral, pensa-se na respiração como o ar que passa entrando e saindo pelo nariz e essa pode ser uma percepção útil como ponto de partida. Use qualquer sensação mais evidente que você associe com essa percepção como meio para estabelecer a atenção plena, desenvolver a plena consciência e fazer com que a mente fique cada vez mais tranqüila.

Mas à medida que a sua atenção ficar mais refinada, você poderá achar o nível da respiração demasiado débil para ser detectado. Então, ao invés disso, tente pensar na respiração como o fluxo de energia no corpo, como um processo corporal completo.

Em seguida, faça com que essa experiência seja tão confortável quanto possível. Se você sentir algum bloqueio ou obstrução na respiração, veja o que pode ser feito para dissolver essas sensações.

Você está fazendo algo para criá-las? Se você for capaz de pegar a si mesmo criando-as, então será mais fácil dissolvê-las. E o que faria você criá-las, fora as suas noções preconcebidas de como deve operar a mecânica da respiração?

Então, questione essas noções: Onde a respiração penetra no corpo? Ela entra só através do nariz e da boca? O corpo tem que puxar a respiração para dentro? Se for assim, quais sensações realizam o puxão? Quais sensações são puxadas? Onde começa o puxão? E de onde é puxada a respiração? Quais partes têm a respiração e quais não têm? Ao sentir uma sensação de bloqueio, de qual lado da sensação você se encontra?

Essas questões podem parecer estranhas, mas muitas vezes as nossas concepções pré-verbais sobre o corpo também são muito estranhas. Só quando você as confronta com perguntas estranhas é que poderá trazê-las à tona. E só quando puder vê-las claramente é que poderá substituí-las por conceitos alternativos.

Então, assim que você se pegar respirando de modo desconfortável de acordo com uma certa suposição em particular, vire-a para a direção oposta para ver quais sensações essa nova suposição irá destacar. Tente permanecer com essas sensações por tanto tempo quanto puder, para testá-las.

Se, comparadas com as suas sensações anteriores associadas à respiração, for mais fácil permanecer com essas novas sensações, se elas proporcionarem uma base mais sólida e ampla para a concentração, a suposição que as chamou para a sua atenção passa a ser uma nova ferramenta útil para a sua meditação.

Se as novas sensações não forem úteis nesse sentido, você poderá deixar essa nova ferramenta de lado.

Por exemplo, se você tem a impressão de estar de um lado de um bloqueio, tente pensar que está do outro lado. Tente estar em ambos os lados. Pense na respiração vindo para dentro do corpo, não através do nariz ou boca, mas através do meio do peito, pela parte detrás do pescoço, através de cada poro da sua pele, de qualquer ponto que ajude a reduzir essa necessidade de puxar e empurrar.

Ou passe a questionar a necessidade de empurrar e puxar. Você sente que a sua experiência imediata do corpo corresponde às suas partes sólidas e de que estas têm que operar a mecânica da respiração que é secundária?

O que acontece se você conceber a sua experiência imediata do corpo de uma forma distinta, como um campo de energia primária da respiração e a solidez como um simples rótulo anexado a certos aspectos da respiração?

O que quer que seja que você experimente como uma sensação corporal primária, pense nisso já como a respiração, sem ter que fazer nada mais para isso. Como isso afeta o nível de estresse e tensão na respiração?

E sobre o ato de permanecer focado? Qual a sua concepção disso? E ela está por trás da respiração? Circundada pela respiração? Até que ponto o seu quadro mental daquilo que é focar ajuda ou atrapalha a facilidade e a solidez da sua concentração?

Por exemplo, você poderá achar que pensa que a mente está numa parte do corpo mas não em outras. O que acontece quando você foca a atenção em outra parte?

A mente tem que deixar a sua base de operações – digamos, na cabeça – para ir até lá, ou a outra parte tem que ser trazida até a cabeça? Que tipo de tensão isso cria? O que acontece se você pensar que a consciência já está presente naquela outra parte?

O que acontece se você der uma reviravolta em tudo: ao invés da mente estar no corpo, veja quanto estresse é eliminado ao pensar que o corpo está circundado por um campo de consciência preexistente.

Ao fazer perguntas desse tipo e obter resultados favoráveis, a mente poderá se estabelecer em níveis cada vez mais profundos de solidez. Você elimina a tensão e estresse desnecessários do seu foco, encontrando formas de se sentir cada vez mais em casa, tranqüilo, experimentando o presente.

Uma vez que a mente tenha se acalmado, conceda-lhe tempo para que assim permaneça. Não tenha pressa de seguir adiante. Neste ponto as questões são, “Quais partes do processo requerem foco? Quais podem ser abandonadas? Quais devem ser mantidas para manter este foco?”

Sintonizar o nível correto de atenção é um processo; manter isso é outro. Quando você aprender como manter o seu senso de quietude, tente mantê-lo ativo em todas as situações. Você descobre o que é que atrapalha? É a sua própria resistência às perturbações? Você é capaz de fazer com que a sua quietude seja tão porosa que as perturbações a atravessem sem colidir com nada, sem desequilibrá-lo?

À medida que você for ficando mais absorto na exploração desses temas, a concentração se tornará menos uma batalha contra as perturbações e mais uma oportunidade para a exploração interior.

E sem nem mesmo pensar nelas, você estará desenvolvendo as quatro bases para o sucesso: o desejo de compreender as coisas, a persistência que o mantém na sua investigação, a atenção cuidadosa que você presta à causa e efeito, e a perspicácia empregada por você na formulação das questões. Todas essas qualidades contribuem para a concentração, auxiliam no seu estabelecimento, solidez e clareza.

Ao mesmo tempo elas estimulam o discernimento. O Buda certa vez disse que um teste para o discernimento de uma pessoa é a maneira pela qual ela formula as suas questões e tenta respondê-las. Assim, para estimular o discernimento, você não pode simplesmente se apegar a instruções predefinidas para a sua meditação. Você tem que a praticar a formulação de questões e testar o karma destas investigando o seu resultado.

Por fim, quando você chegar a uma percepção da respiração que permita as sensações da inspiração e expiração se acalmarem, você poderá começar a questionar percepções mais sutis do corpo.

É como sintonizar uma estação de rádio. Se o seu receptor não estiver sintonizado com precisão, a estática irá interferir com a sutileza daquilo que estiver sendo transmitido. Mas quando você estiver perfeitamente sintonizado, todas as nuanças serão percebidas.

O mesmo ocorre com as sensações do corpo: quando os movimentos da respiração se acalmam, as nuanças mais sutis de como a percepção interage com as sensações físicas passam a se destacar. O corpo parece uma névoa de sensações atômicas e você começa a ver como as suas percepções interagem com essa névoa.

Até que ponto a forma do corpo é inerente a essa névoa? Até que ponto é algo intencional – algo adicionado? O que acontece se você abandonar a intenção de criar essa forma? Você é capaz de focar no espaço entre as gotículas nessa névoa? O que acontece então? Você é capaz de permanecer nisso? O que acontece quando você abandona a percepção do espaço e foca no conhecimento? Você é capaz de permanecer nisso? O que acontece quando você abandona a unicidade do conhecimento? Você é capaz de permanecer nisso? O que acontece quando você tenta abandonar a rotulação de absolutamente tudo?

À medida que você se estabelece nesses estados desprovidos de forma, é importante que você não perca de vista o seu propósito ao sintonizá-los. Você está ali para entender o sofrimento, não para super-interpretar aquilo que você experimenta. Digamos, por exemplo, que você se estabeleça num senso envolvente de espaço ou consciência.

A partir disso, é fácil assumir que você alcançou a consciência primordial, a base do ser, do qual todas as coisas emergem, para a qual todas retornam e que é essencialmente intocada por todo o processo de emersão e regresso.

Você poderá tomar as descrições do Incondicionado e aplicá-las àquilo que estiver experimentando. Se você estiver estabelecido num estado de nem percepção, nem não percepção, é fácil ver isso como o não-permanecer, desprovido de diferenciação entre aquele que percebe e o percebido, pois a atividade mental é tão atenuada sendo virtualmente imperceptível.

Impressionado com a aparente ausência de esforço desse estado, você poderá sentir que superou a paixão, aversão e delusão simplesmente por considerá-las como irreais. Se você aderir a esse tipo de concepção poderá facilmente imaginar ter alcançado o fim do caminho antes de ter na realidade concluído o seu trabalho.

A sua única proteção neste caso é considerar essas concepções como formas de percepção e também desmantelá-las. E é neste ponto que as quatro nobres verdades provam o seu valor como ferramentas para desmantelar qualquer concepção detectando o estresse que as acompanha. Questione se ainda existe algum estresse sutil na concentração que passou a ser o seu local de permanência. O que acompanha esse estresse? Quais movimentos errantes da mente o estão criando? Quais movimentos persistentes da mente o estão criando? Você tem que estar vigilante em relação a ambos.

Dessa forma, você ficará face a face com as percepções que mantêm até mesmo os estados de concentração mais sutis. E você verá que até mesmo essas são estressantes. Se você substituí-las por outras percepções, no entanto, você simplesmente estará trocando um tipo de estresse por outro. É como se os níveis ascendentes de concentração o levassem até o topo de um pau de bandeira. Você olha para baixo e vê envelhecimento, enfermidade e morte subindo no pau em perseguição. Você exauriu todas as possibilidades que a percepção pode oferecer, então o que irá fazer? Você não pode simplesmente ficar onde está. A sua única opção é soltar- se. E se você se soltar de tudo, irá se soltar da gravidade também.
A Meditação da Atenção Plena
e a Estrutura do Cérebro




A prática da meditação da atenção plena, (vipassana), durante oito semanas modifica a estrutura do cérebro.

Massachusetts, EUA. A participação num programa de meditação da atenção plena com duração de oito semanas parece resultar em mudanças mensuráveis nas regiões do cérebro associadas com a memória, noção de identidade, empatia e estresse.

Num estudo publicado na edição de 30 de Janeiro de 2011 na Psychiatry Research: Neuroimaging, uma equipe liderada por pesquisadores do Massachusetts General Hospital (MGH), descrevem os resultados do estudo feito, o primeiro a documentar modificações, devido à meditação, produzidas ao longo do tempo na massa cinzenta do cérebro.

"Embora a prática de meditação esteja associada com um sentimento de paz e relaxamento físico, os praticantes há muito tempo têm afirmado que a meditação também proporciona benefícios cognitivos e psicológicos que persistem ao longo do dia," diz Sara Lazar, PhD, do MGH Psychiatric Neuroimaging Research Program, a autora sênior do estudo.

"Este estudo demonstra que mudanças na estrutura do cérebro podem dar suporte a algumas dessas melhorias que foram relatadas e que as pessoas não se sentem melhor simplesmente porque estão passando algum tempo relaxando."

Estudos anteriores feitos pela equipe da Dra. Lazar e outros observaram diferenças estruturais entre os cérebros de meditadores experientes e indivíduos sem histórico de meditação, verificando o espessamento do córtex cerebral nas áreas associadas com a atenção e a integração emocional. Mas essas investigações não puderam documentar que essas diferenças tenham na verdade sido produzidas pela meditação.

No presente estudo, imagens de Ressonância Magnética (RM) dos 16 participantes no estudo foram feitas duas semanas antes que eles tomassem parte durante 8 semanas no Programa para Redução de Estresse com base na Atenção Plena do Centro para Atenção Plena da Universidade de Massachusetts, (Mindfulness-Based Stress Reduction Program (MBSR) da University of Massachusetts Center for Mindfulness).

Além das reuniões semanais que incluíam a prática da meditação da atenção plena - dirigir a atenção desprovida de julgamento para as sensações e estados mentais - os participantes receberam gravações de áudio para a prática guiada da meditação e foram solicitados a manter o registro de quanto tempo meditavam a cada dia.

Também foram tomadas imagens de RM do cérebro de um grupo de controle de não meditadores durante o mesmo intervalo de tempo.

Os participantes no grupo dos meditadores relataram em média praticar a meditação durante 27 minutos por dia e as suas respostas a um teste sobre a atenção indicaram melhoras significativas comparadas com o resultado antes do estudo.

A análise das imagens de RM, que focaram nas áreas em que diferenças associadas à meditação foram observadas em estudos anteriores, encontraram aumento na densidade da massa cinzenta no hipocampo, que é sabido ser importante para o aprendizado e memória e nas estruturas associadas com a noção de identidade, compaixão e introspecção.

A redução no nível de estresse relatada pelos participantes foi correlacionada com a redução na densidade da massa cinzenta na amígdala, que é sabido desempenhar um importante papel na ansiedade e estresse.

Embora nenhuma mudança tenha sido observada na estrutura associada à noção de identidade denominada insula, que havia sido identificada em estudos anteriores, os autores sugeriram que a prática da meditação por um período de tempo mais longo pode ser necessária para produzir mudanças nessa área.

Nenhuma dessas alterações foi observada no grupo de controle, indicando que não foi uma mudança devido à mera passagem do tempo.

"É fascinante observar a plasticidade do cérebro e que praticando a meditação podemos desempenhar um papel ativo na transformação do cérebro e que podemos aumentar o nosso bem-estar e qualidade de vida," disse Britta Hölzel, PhD, uma das autoras do estudo e pesquisadora no MGH e na Giessen University na Alemanha.

"Outros estudos em diferentes grupos de pacientes demonstraram que a meditação pode resultar em melhorias significativas numa variedade de sintomas e agora estamos investigando os mecanismos subjacentes no cérebro que facilitam essa mudança."

Amishi Jha, PhD, um cientista neurológico na Universidade de Miami que investiga os efeitos do treinamento da atenção plena em indivíduos em situações de estresse intensas, diz.

"Esses resultados elucidam os mecanismos do treinamento baseado na atenção plena. Eles demonstram que não somente a experiência de estresse de uma pessoa pode ser reduzida com um programa de treinamento da atenção plena de oito semanas mas que essa mudança experimentada corresponde a mudanças estruturais na amígdala, uma descoberta que abre as portas para muitas outras oportunidades de investigação do potencial de MBSR para proteger contra distúrbios originados do estresse como por exemplo o distúrbio do estresse pós traumático (PTSD - Post-Traumatic Stress Disorder)". Jha não foi um dos pesquisadores no estudo.

James Carmody, PhD, do Center for Mindfulness na University of Massachusetts Medical School, é um dos co-autores do estudo que teve o apoio do National Institutes of Health, da British Broadcasting Company, e do Mind and Life Institute.
Atenção plena nas sensações e emoções:
Introdução e meditação guiada


Ayya Khema





Introdução

Esse método de meditação é com frequência chamado de vipassan­a, mas esse é na verdade um nome incorreto, porque vipassan­a significa “insight”. Não se pode dizer que um método é insight; insight se manifesta com a claridade da mente.

Portanto, nós comumente o chamamos de “varredura”, porém não devemos fazer nenhuma conexão com uma vassoura. A “varredura” que vamos fazer é chamada “parte por parte.”

Em um aspecto, esse é um método de purificação. Porque o caminho todo do Buda é o da purificação, e qualquer coisa que possamos usar para nos ajudar ao longo dele é uma ajuda bem-vinda.

Esse método de purificação é bem específico e se torna claro quando nos lembramos que nossas reações físicas às nossas emoções são constantes e imediatas e que somos incapazes de pará-las.

Se estamos felizes, que é uma emoção, nós provavelmente sorrimos ou damos risada.

Se estamos infelizes, nós provavelmente choramos ou fazemos um cara infeliz, ou franzimos as sombrancelhas.

Se estamos zangados, podemos ficar vermelhos ou com a fisionomia enrigecida.

Se estamos ansiosos, por exemplo, no meio de um trânsito pesado, nossos ombros se contraem; existem muito poucas pessoas que não têm tensão nos ombros. Embora seja irrelevante saber que emoção está ligada a esta ou aquela parte do corpo. Nossas reações emocionais não têm nenhuma outra maneira de se manifestar que não através do nosso corpo.

Desde o nascimento, nós lidamos com as nossas emoções dessa maneira, ou talvez, nós poderíamos dizer que lidamos mal. O corpo tem sempre reagido e talvez retido algumas dessas reações em forma de tensões e bloqueios.

Esse método de meditação tem o potencial de remover esses bloqueios ou pelo menos de transformá-los em algo menos obstrutivo, dependendo da força da nossa concentração e também do nosso kamma.

Imagine por um momento que algumas pessoas têm vivido nesta sala nos últimos trinta anos, e nunca a limparam. Elas teriam deixado restos de comida, excremento, roupas sujas e louça suja; e nunca teriam varrido o chão.

Agora o lugar estaria sujo e bagunçado, do chão até o teto. Então, um amigo viria e diria aos ocupantes: “Porque vocês não varrem pelo menos um cantinho, onde vocês possam se sentar confortavelmente?”

Nossos amigos que estariam vivendo aqui fariam isso e descobririam que esse cantinho é muito mais confortável do que anteriormente, apesar deles não terem sido capazes de imaginar isso antes da limpeza. Agora eles se sentem motivados a limpar todo o restante da sala.

Eles descobrem que eles podem agora ver lá fora, através das janelas e toda a perspectiva de viver neste lugar se torna muito mais agradável.

É claro que qualquer pessoa poderia ter se mudado para algum outro lugar quando a bagunça se tornasse muito insuportável, mas todos nós somos muito presos ao nosso corpo. Não podemos nos afastar dele.

Podemos mudar a nossa residência muitas vezes durante a nossa vida – seja de cidade ou país, de um apartamento ou de uma casa, de estar com amigos a estar sozinho, de um país para outro – mas o nosso corpo nos acompanha sempre. É a nossa vivenda permanente até que ele se desagrega e morre, e vira pó.

E enquanto temos o nosso corpo, poderíamos também tentar fazer o melhor uso dele, pois de outro modo, teremos perturbação e aborrecimento na nossa meditação. Acontece todo tipo de coisas que não queremos que aconteça.

Quando nós tomamos um banho, tudo que podemos fazer é lavar a nossa pele. Todos nós sabemos que consistimos de muito mais do que só pele, mas ainda assim é tudo que podemos limpar. Dia após dia, temos uma pele limpa e agradável e provavelmente cabelo limpo também. Isso é tudo que conseguimos fazer. O método vipassana na sua primeira aplicação pode se parecer com um banho interno. O que a mente plantou através de reações emocionais, ela pode remover através do abandono.

O abandono é o segredo da purificação. Cada vez que movemos de um ponto no corpo para o próximo, temos o abandono do que quer que tenha surgido no ponto anterior.

No final, nós deixamos ir todas as sensações e emoções através da ponta dos nossos dedos das mãos e dos pés para o interior da sala de meditação, porque não existe mais nenhuma outra parte do corpo para a qual nós possamos mover a nossa atenção.

E através disso, nós fazemos uma limpeza, tomamos um banho interno e fazemos a remoção de alguns bloqueios interiores. E como isso é de grande ajuda fisicamente, nossa mente também fica mais relaxada. E agora como já não temos tantas dificuldades com o corpo, podemos usar nossa energia mental livre do desconforto.

Essa técnica tem também uma propriedade de cura. Qualquer pessoa com alguma concentração pode facilmente se livrar de uma dor de cabeça ou mesmo dor nas costas. Algumas doenças que já estão profundamente enraizadas serão mais difíceis de erradicar, podendo até mesmo ser impossível se livrar delas. A técnica tem no entanto, muitas outras possibilidades.

Um dos seus importantes aspectos é que aprendemos a abandonar os nossos sentimentos, de forma que não precisemos reagir a eles. Os sentimentos compreendem as sensações físicas e as emoções.

A única porta, em toda a origem dependente mundana, através da qual nós podemos sair do samsara, é a não reação a essas sensações e emoções, e com isso vem o abandono do apego. Apego tem sempre o significado de “querer ter” ou “querer se ver livre de”.

Não precisamos estar viciados, no sentido estrito da palavra, só o fato de querer manter a posse ou de querer mais de algo, ou rejeitar algo, ou querer destruir, já é o suficiente. Aqui nós temos um método através do qual podemos realmente nos tornar conscientes das nossas sensações, sem que seja necessário qualquer reação.

Mesmo se a raiva surgir, essa é uma ocasião em que sabemos com certeza que ninguém a causou. E essa poderá ser a primeira vez na nossa vida que estaremos conscientes da raiva surgindo, sem que nada fora de nós a tenha despertado. O mesmo se aplica à dor, preocupação, medo ou qualquer outra das nossas sensações e emoções.

Esse método também nos dá a oportunidade de nos tornarmos conscientes das sensações que de vez em quando são desagradáveis. Se as abandonarmos e movermos nossa atenção para a próxima parte do nosso corpo, nós desempenharemos a mesma ação – isto é, não reação a uma sensação desagradável através do abandono da rejeição. Nós abandonamos uma sensação quando colocamos a nossa atenção em algum outro lugar.

Esse método nos ensina a lidar com todas as nossas sensações e emoções com equanimidade. Porém, a repetição para nós mesmos, inúmeras vezes, de que esse é o único modo de lidar com as sensações e emoções, mas sem praticá-lo, não nos capacitará nesta tarefa. A compreensão – estar intelectualmente consciente – é o primeiro passo, mas a menos que tenhamos uma prática estruturada, nós não poderemos aprender isso ou qualquer outra habilidade.

Gosto de comparar nossas sensações a um brinquedo de criança, o boneco pulador, que consiste de um palhaço preso numa mola, que pula para fora da caixa cada vez que a tampa é acionada. A criança só precisa tocar na tampa da caixa de leve e o palhaço pula para fora. Aí alguém arranca o palhaço da caixa e quando a criança voltar a tocar a tampa, o palhaço não mais pulará para fora.

Isso é o que acontece dentro de nós. Nossas emoções estão embutidas no nosso coração. Nós só precisamos de uma pequena impulsão e ser tocados de leve que a raiva ou medo, ou desejo saltam para fora. E quando estes finalmente se vão, nem mesmo batendo com um martelo pode fazer com que eles reapareçam.

A purificação que nós aspiramos necessita de um caminho. É evidente que podemos praticar no nosso dia-a-dia, onde somos frequentemente tão confrontados por reações emocionais, mas um método de meditação é uma ajuda enorme e serve como um sistema de apoio.

Em primeiro lugar, porque não existe um agente externo e portanto fica bem claro que tudo está acontecendo dentro de nós. Na quietude e paz da prática da meditação é também muito mais fácil não reagir do que na imediatidade da confrontação – no calor da batalha, por assim dizer.

Aqui nós temos também um método de ganhar insight de várias maneiras. Durante a meditação guiada, mencionei solidez, calor, movimento. Todos os corpos consistem de quatro elementos primários e esses podem ser facilmente experienciados nessa meditação em particular.

Os elementos primários são: terra, água, fogo e ar.

Terra é o elemento da solidez, a dureza que nós podemos sentir quando nós tocamos o corpo ou quando o corpo toca a almofada, o chão ou a cadeira.

O elemento água não é só saliva, urina, suor e sangue, mas o elemento de coesão. Quando derramamos água num pouco de farinha, ela se torna uma massa. É por isso que setenta e oito por cento do nosso corpo é feito de água. Se assim não fosse, todas as partes estariam se movendo separadamente. Teríamos uma aparência um pouco estranha, mas talvez não tivéssemos um sentimento tão forte em relação ao nosso ego, se nós pudéssemos realmente observar todas as nossas células separadas. A água mantém juntas todas as partes do nosso corpo.

O elemento fogo é temperatura; nosso corpo sente o calor o frio ou o meio-termo. E existe o ar que são os ventos no corpo – a respiração e todos os movimentos físicos.

Quando experienciamos algum ou todos esses elementos dentro de nós, temos uma boa oportunidade de relacionar essa experiência com tudo ao nosso redor. Tudo que existe consiste desses quatro elementos e cada um deles contém os outros três em proporções variadas.

Por exemplo, a água tem que ter solidez, de outro modo nós não poderíamos nadar or remar um barco. Ganhar insight sobre o fato de que nós consistimos desses elementos nos ajuda a compreender que nós não somos diferentes do nosso meio ambiente. Não importa para onde olhemos, encontraremos esses quatro elementos. À medida que fixamos a nossa atenção nessa realidade, nosso sentimento de separação diminuirá e nós passaremos a nos sentir como parte de toda manifestação nesse universo.


Poderemos nos sentir inseridos nessa totalidade e não mais ameaçados pelas outras pessoas ou por catástrofes naturais ou não. Nós somos parte de um todo, o todo é parte de nós; não existe separação, nem alienação.

Quanto mais pudermos viver nessa realização, mais fácil será a purificação das nossas emoções com amor bondade, (metta).Quando não nos sentirmos mais separados dos outros, uma unidade única no meio de tantos, mas pudermos ver apenas uma manifestação universal, será muito mais fácil sentir metta pelos outros, porque essencialmente estaremos direcionando esse sentimento para nós mesmos.

Quando nos observamos à luz dos quatro elementos primários, nós também perdemos um pouco da nossa consciência profundamente impregnada do ego, que é a causa de todos os problemas que possam surgir. É impossivel encontrar o atributo “eu” numa combinação de terra, água, fogo e ar. Portanto, uma investigação contemplativa desses aspectos em nós mesmos pode produzir resultados de longo alcance.

Todos nós sabemos sobre a impermanência e provavelmente já ouvimos a palavra muitas vezes. E existem poucas pessoas no mundo que questionariam a impermanência, estejam elas seguindo uma prática espiritual em particular ou não.

Nós provavelmente poderíamos perguntar ao carteiro ou ao encarregado da loja da esquina se tudo é impermanente e eles com certeza concordariam que é assim mesmo.

Todos nós concordamos, mas temos que experienciar a impermanência para que ela deixe uma impressão em nós, e mesmo assim, nem sempre é o suficiente. Mas, quanto mais experienciarmos a impermanência, mais frequentemente nossa mente se voltará do seu modo habitual de pensar para o modo do Dhamma, que é uma virada de 180 graus. E é por isso que temos grandes dificuldades em pensar e viver no modo do Dhamma.

Mas, finalmente, se perseverarmos durante um período de tempo suficiente, se formos bem determinados e recebermos uma pequena ajuda no caminho, conseguiremos. À medida que nos distanciarmos do pensamento mundano, a impermanência se tornará uma das características proeminentes em tudo que nós experienciarmos.

Nesse método de meditação, nós focamos na impermanência de cada sensação e de cada emoção bem como no seu surgimento e cessação. Nós não só experienciamos a impermanência, como também compreendemos que nós só tomamos consciência de algo quando fixamos nossa atenção ali.

Se nós levarmos essa realização para o nosso dia-a-dia, notaremos que a vida se torna muito mais fácil. Não temos que colocar a nossa atenção em coisas que trazem problema, fazendo a vida mais difícil para nós mesmos.

Quando experienciamos negativismo, não precisamos mantê-lo na nossa consciência. Somos livres para movermos nossa atenção para o que é realmente verdadeiro, ou seja, impermanência, insatisfação e o não-eu. Ou podemos nos conectar com as emoções puras do amor bondade, compaixão, alegria altruísta e equanimidade. Depende inteiramente de nós aonde nossa atenção é focada.

Como resultado da meditação, aprendemos que nós podemos escolher o que pensar, que é uma nova e valiosa abordagem aos nossos estados mentais. É dessa maneira também que finalmente mudamos nossa consciência para a consciência do Dhamma o tempo todo. Teremos então aprendido como abandonar aqueles pensamentos que não estão de acordo com a verdade absoluta.

A impermanência das nossas sensações e emoções, experienciada durante a meditação, deveria dar origem a um insight em relação à natureza impermanente de todo o nosso ser. E o fato do nosso corpo parecer tão sólido na sua forma é apenas uma manifestação do elemento terra, e na verdade não é nada mais do que ilusão ótica.

Quando experienciamos as sensações e emoções como totalmente impermanentes, sabendo que nós habitualmente vivemos reagindo a elas, nós começamos a nos ver pequenos e menos sólidos do que antes, e pode ser que comecemos a questionar onde é que um “eu” pode ser encontrado dentro dessa constante mudança.

Isso nos dá a oportunidade de colocar menos importância nas nossas emoções, da mesma forma que aprendemos a considerar os nossos pensamentos menos importantes quando os rotulamos durante a nossa prática de meditação e vemos de quão pouca utilidade eles são – que eles são na realidade dukkha, porque eles estão constantemente se movendo, mudando e perturbando.

A maioria das pesssoas reagem automaticamente às suas emoções e justificam isso com a asserção de que simplesmente é assim que elas sentem. Todos nós já fizemos isso. Existem esses letreiros de pára-choques na América que proclamam, “se é bom, deve ser correto”. Essa afirmação não só é tola, mas perigosa.

Podemos ver em tudo isso quanta importância têm as emoções. E enquanto a nossa consciência não tiver se tornado uma consciência do Dhamma, nós cairemos nessa armadilha. Agora nós temos uma oportunidade para uma nova abordagem. Emoções e sensações são impermanentes e inteiramente dependentes de onde nós fixamos a nossa atenção. Como podem elas ter uma significância real, que vai além do seu surgimento e cessação? Obviamente, nós não nos lembraremos sempre de adotar essa nova abordagem, mas pelo menos temos um método para lidar com as nossas emoções que, por fim, se tornará parte do nosso ser. Quando nos sentamos em silêncio, e nada acontecendo, é mais fácil aprender novos métodos para lidar com nós mesmos. De fato, não é nada difícil abandonar uma sensação ou emoção e cuidar de outra. Mas precisamos ser capazes de trazer essa habilidade para o escritório e para a cozinha, quando alguém nos dá uma “bronca” ou exige atenção; e quando tivermos feito isso repetidamente na meditação, isso se tornará muito mais fácil. Nós não mais seremos pegos pelas nossas emoções e pelas nossas reações a elas.

Essa atitude nos traz para um ponto dentro da origem dependente que é a porta que nos levará para fora da esfera do nascimento e morte: isto é, a prática da equanimidade em resposta às sensações, ao invés do costumeiro “gosto” e “não gosto”, em resumo, “desejo” e “raiva”. Através da atenção plena nós aprenderemos a fazer o tipo certo de escolha. E se escolhermos o Dhamma, encontraremos tranquilidade e harmonia dentro de nós.

Meditação Guiada da Atenção Plena nas emoções e sensações ou Varredura

Nesse momento precisamos nos familiarizar com o ponto no corpo que chamamos de “topo da cabeça”, que é uma depressão bem raza que todos temos no topo da nossa cabeça. Num bebê, é a moleira, onde os ossos crescem e se juntam mais tarde. Podemos encontrá-la tres ou quatro dedos de largura, para trás da raiz dos cabelos na testa. O outro ponto é a coroa da cabeça, que é mais ou menos do tamanho de uma moeda grande, onde o cabelo cresce em várias direções. Algumas pessoas têm-na do lado esquerdo, outras do lado direito e algumas bem no meio da cabeça. Onde quer que a tenhamos, este é o ponto.

Comece prestando atenção à sensação gerada pelo ar da respiração nas narinas. Tome consciência dessa sensação por algum tempo.

Agora transfira a sua atenção para o “topo da cabeça”, abandone a respiração e deixe tudo o mais para trás. Ponha a sua total atenção no topo da cabeça e note qualquer sensação que possa ser sentida ali: cócegas, peso, pressão, formigamento, se é agradável ou desagradável, movimento, imobilidade, calor, frio – qualquer uma dessas ou qualquer outra. Você não precisa nomear a sensação, mas se quiser, pode. Eu as estou nomeando para exemplificar.

Lentamente, mude a sua atenção do topo da cabeça para a coroa, movendo a sua atenção para trás do topo da cabeça, ponto por ponto, consciente de cada ponto. Note a sensação, a emoção; deixe-a e siga para o próximo ponto. Tente cobrir todo o topo da cabeça. Sensação é física e emoção é emocional.

Note qualquer coisa que possa surgir; abandone-a e foque no próximo ponto: solidez, suavidade, pressão, formigamento, contração, expansão, calor, pulsação, batimento, golpe, desagrado... a sensação pode ser na pele ou sob a pele. Pode ser profunda ou na superfície. A única coisa que realmente importa é estar consciente dela.

Agora concentre-se na coroa, uma pequena área. Fique consciente da sensação. Tente voltar para dentro de si mesmo de tal modo que os sentimentos e sensações se tornem aparentes.

Vagarosamente mude a sua atenção da coroa para toda a parte de trás da cabeça até a base do crânio, onde o pescoço se junta com a cabeça. Dê a sua total atenção para cada ponto, notando, abandonando o que notou e seguindo adiante para o próximo ponto.

Agora coloque a sua completa atenção no lado esquerdo da cabeça, lentamente movendo-a do topo para baixo até a linha da mandíbula, e da raiz do cabelo, na frente, até a parte detrás da orelha.

Concentre-se em cada ponto, movendo a sua atenção vagarosamente para baixo, tornando-se consciente de cada emoção ou de cada sensação... notando solidez, toque, tensão, relaxamento, qualquer coisa que surgir. Note, abandone-a e siga adiante para o próximo ponto.

Traga a sua atenção para o lado direito da cabeça, lentamente movendo do topo da cabeça para a linha da mandíbula, da raiz do cabelo, na frente, até a parte detrás da orelha.

Dê total atenção a cada ponto à medida que você move a sua atenção para baixo, conscientizando-se da sensação, conscientizando-se da emoção, na pele ou sob a pele, dentro ou na superfície. Estar consciente é o que conta.

Coloque toda a sua atenção na raiz do cabelo sobre a testa e lentamente mova-a para baixo, abrangendo toda a extensão da testa até as sombrancelhas, ponto por ponto. Note o que quer que surja: pulsação, movimento, pressão, batimento, agradável ou desagradável.

Agora volte toda a sua atenção para o olho esquerdo, e tudo envolta dele, o globo ocular, as pálpebras; note a sensação ou qualquer emoção: pressão, peso, escuridão, luz, o contato, tremor, imobilidade.

Em seguida, transfira a sua atenção para o olho direito. Tudo em volta dele, o globo ocular, as pálpebras; note a sensação ou qualquer emoção da qual você tenha consciência.

Concentre-se no ponto entre as sombrancelhas. Lentamente mova-a para baixo para a ponta do nariz, notando ponto por ponto: solidez, suavidade, formigamento, pode ser qualquer uma destas ou qualquer outra sensação da qual você tenha consciência.

Agora fixe a sua atenção nas narinas. Vagarosamente mova-a para dentro do nariz, notando a sensação do ar, movimento, espaço, confinamento, abertura, coceira, humidade, sequidão, contato.

Concentre­-se na pequena área entre a ponta do nariz e o lábio superior, a extensão toda do lábio superior. Note qualquer sensação ou qualquer emoção que surja: contato, movimento, tremor, imobilidade, peso, leveza.

Mova a sua atenção para os lábios, superior e inferior. Note o contato, pressão, contração, humidade, sequidão, agradável ou desagradável, qualquer uma destas ou quaisquer outras.

Coloque a sua atenção dentro da boca. Fique consciente de qualquer sensação ou emoção. Mova de um ponto para outro, cobrindo toda a área.

Coloque toda a sua atenção no queixo. Fique consciente de como é que você o sente.

Mova a sua atenção para a bochecha esquerda, movendo-a lentamente para baixo, do olho até a linha da mandíbula. Com a sua atenção em cada ponto, note qualquer sensação ou emoção; abandone-a e mova para o próximo ponto.

Concentre-se na bochecha direita, movendo vagarosamente para baixo, do olho até a linha da mandíbula, ponto por ponto. Conscientize-se da sensação ou emoção; notando, abandonando e movendo para o próximo ponto. A sensação pode ser fraca ou definida, não importa.

Coloque sua atenção na garganta. Movendo lentamente da linha da mandíbula para onde o pescoço se junta ao tronco, ponto por ponto, do lado de dentro ou do lado de fora, notando o contato, calor, obstrução, peso, leveza, pulsação.

Mova a sua atenção para a parte de trás da garganta, começando na base da cabeça, movendo lentamente para baixo onde o pescoço se junta ao tronco. Observe cada ponto, tenso, relaxado, nodoso, agradável ou desagradável, como se houvesse algo cutucando, golpeando, cócegas, formigamento – qualquer uma destas ou quaisquer outras.

Coloque toda a sua atenção no ombro esquerdo. Movendo lentamente do pescoço ao longo do topo do ombro até onde o braço esquerdo se junta. Observe cada ponto, tornando-se consciente de cada sensação ou emoção: tenso, relaxado, pesado, sobrecarregado; o que quer que surja, observando, abandonando e seguindo diante para o próximo ponto.

Agora volte a sua atenção para a parte superior do braço esquerdo, movendo lentamente para baixo, do ombro até o cotovelo, por todo o braço, conscientizando-se de cada ponto à medida que você percorre essa área. Observe a sensação, a emoção; abandone-a e continue até o próximo ponto. Note o contato, calor, movimento, peso, leveza, contração, expansão.

Concentre-se no cotovelo esquerdo. É uma pequena área, portanto deixe que tudo o mais se vá. Preste atenção exclusivamente no cotovelo esquerdo e em nenhuma outra parte do corpo e observe a sensação e a emoção que surgir.

Ponha toda a sua atenção no antebraço esquerdo. Vagarosamente mova do cotovelo até o pulso, por todo o antebraço, ponto por ponto; observe, abandone e continue até o próximo ponto, na pele ou sob a pele, na superfície ou mais profundamente. Chegue bem perto das sua próprias sensações e emoções.

Mova a sua atenção para o pulso esquerdo, por todo o pulso. Note a pulsação, batimento, contração, contato.

Em seguida, concentre-se no dorso da mão esquerda, do pulso até onde os dedos se juntam. Coloque a sua atenção na palma da mão esquerda, do pulso até onde os dedos se juntam. Foque a sua atenção na parte de baixo dos cinco dedos da mão esquerda. Lentamente mova ao longo dos dedos até a ponta. Coloque toda a sua atenção na ponta dos cinco dedos e aí mentalmente faça um movimento da ponta dos dedos para longe deles, para o interior da sala de meditação.

Coloque toda a sua atenção no ombro direito. Movendo vagarosamente do pescoço ao longo do topo do ombro até onde o braço direito se junta. Note cada ponto: peso, contração, nodoso, tenso, relaxado, sobrecarregado, dor, tristeza, raiva, resistência, qualquer coisa, seja o que for. Observe, abandone e siga para o próximo ponto.

Mova a sua atenção para o braço direito. Movendo lentamente do ombro para o cotovelo, por todo o braço. Ponto por ponto, na pele ou sob a pele: solidez, suavidade, calor, frio, contato, movimento, imobilidade.

Concentre-se no cotovelo direito. Deixe que tudo o mais se vá; preste atenção só nesta pequena área e observe as sensações: latejante, contraído, elétrico.

Coloque a sua atenção no antebraço direito. Movendo lentamente do cotovelo para o pulso, por toda parte. Observe a superfície ou bem profundamente.

Em seguida, mova a sua atenção para o dorso da mão direita, do pulso até onde os dedos se juntam. Ponha a sua atenção na palma da mão direita, do pulso até onde os dedos se juntam. Foque a sua atenção na parte de baixo dos cinco dedos da mão direita. Lentamente mova ao longo dos dedos até a ponta. Coloque toda a sua atenção na ponta dos cinco dedos e aí mentalmente faça um movimento da ponta dos dedos para longe deles, para o interior dentro da sala de meditação.

Ponha toda a sua atenção no lado esquerdo da parte da frente do tronco. Mova lentamente do ombro esquerdo até a cintura, tocando cada ponto à medida que você move a sua atenção.

Observe a emoção ou sensação: restrição, expansão, golpes, peso, leveza, formigamento, solidez, suavidade, rejeição, resistência, preocupação, medo, o que quer que surja na superfície, observe, deixe que se vá e continue até o próximo ponto.

Mova a sua atenção para o lado direito da parte da frente do tronco; movendo lentamente do ombro direito até a cintura, tocando em cada ponto com plena atenção.

Coloque toda a sua atenção na parte da frente da cintura. Observe a sensação: firmeza, flacidez. Mova lentamente da cintura para a virilha, até a parte mais baixa do tronco, ponto por ponto, tomando consciência da sensação, da emoção, abandonando-a e movendo para o próximo ponto, tornando-se consciente de como você sente cada ponto.

Coloque a sua atenção do lado esquerdo das costas, movendo lentamente do ombro até a cintura, prestando atenção a cada ponto, tornando-se consciente da sensação e da emoção, abandonando-a e observando o próximo ponto: tensão, nodoso, preocupação, contato, calor, movimento, solidez, suavidade, formigamento.

Coloque toda a sua atenção no lado direito das costas, movendo lentamente do ombro até a cintura, com plena atenção em cada ponto.

Ponha toda a sua atenção na parte de trás da cintura: contraída, expandida, espasmódica, golpes, cutucação. Começando da cintura, mova lentamente até a nádega esquerda, onde a perna se junta. Observe ponto por ponto, na pele, sob a pele, mais profundamente ou na superfície. Observe, abandone e mova para o próximo ponto: peso, contato, pressão.

Mova para o lado direito da parte de trás da cintura. Vagarosamente desloque a atenção para a nádega direita, até onde a perna se junta. Observe cada ponto, cada sensação.

Concentre-se na coxa direita. Movendo vagarosamente da virilha até o joelho, por toda parte; observando a pressão, contato, sensação desagradável, dor aguda, cutucação. Observe, abandone e continue até o próximo ponto.

Concentre-se no joelho direito, por toda parte, dentro e fora.

Coloque a sua atenção na perna. Movendo lentamente do joelho até o tornozelo, por toda parte, reconhecendo cada ponto.

Coloque a sua atenção no tornozelo direito. Observe a pressão, contato, solidez, suavidade.

Ponha a sua atenção no calcanhar direito, uma área pequena. Deixe que todo o resto se vá e dê toda a sua atenção para essa área.

Coloque toda a sua atenção na sola do pé direito, movendo do calcanhar até onde os dedos do pé se juntam. Fique consciente de cada ponto. Observe a sensação ou emoção: maciez, aspereza, calor, contato, golpes, repuxo.

Coloque a sua atenção no peito do pé direito, do tornozelo até onde os dedos do pé se juntam, ponto por ponto, observando dentro e fora. Ponha a sua total atenção na base dos 5 dedos do pé direito. Lentamente movendo ao longo dos dedos até a ponta. Ponha a sua atenção na ponta dos cinco dedos e faça um movimento com a mente para longe deles, da ponta dos dedos para dentro da sala de meditação.

Em seguida, mova a sua atenção para a coxa esquerda. Lentamente mova da virilha para o joelho, por toda parte, ponto por ponto. Observe, abandone e vá para o próximo ponto.

Ponha toda a sua atenção no joelho esquerdo, por toda parte, em volta, dentro, fora, completamente consciente das emoções e sensações.

Concentre-se na perna esquerda. Lentamente mova do joelho para o tornozelo, por toda parte. Observe a pressão, peso, solidez, dureza, contato, golpes, pontadas, formigamento. Seja o que for, observe, abandone e mova a sua atenção para o próximo ponto.

Ponha toda a sua atenção no tornozelo esquerdo, por toda parte. Observe o contato, pressão, resistência, rejeição.

Mova a sua atenção para o calcanhar esquerdo, uma pequena área. Deixe que tudo o mais se vá. Dê total atenção para essa área.

Coloque toda a sua atenção na sola do pé esquerdo. Lentamente movendo do calcanhar para onde os dedos do pé se juntam. Observe cada ponto: pressão, contato, calor.

Coloque toda a sua atenção no peito do pé, do tornozelo até onde os dedos do pé se juntam, ponto por ponto, observando, completamente consciente. Mova a sua atenção para a base dos cinco dedos do pé esquerdo. Movendo vagarosamente ao longo dos dedos até a ponta. Ponha toda a sua atenção na ponta dos cinco dedos. Faça um movimento com a mente para longe deles, da ponta dos dedos para o interior da sala de meditação.




--------------------------------------------------------------------------------



Algumas dicas do professor Leigh Brasington:

Coloque a sua atenção numa área pequena, de mais ou menos 4 cms de diâmetro.

Se, no início, ao colocar a sua atenção no topo da cabeça, a concentração estiver fraca e você não puder sentir nenhuma sensação, depois de colocar a sua atenção ali, mova-a para a parede à sua esquerda e em seguida volte ao topo da cabeça. Mova a sua atenção deste modo várias vezes.

Se você perder a concentração no meio da varredura, vá para o ponto onde você sentiu alguma sensação e mova a sua atenção para a parede à sua direita, mova-a várias vezes até sentir a concentração recuperada. Faça a varredura no corpo todo em não menos do que 30 minutos e no máximo 50 minutos, para que ela não se torne maçante.

Se sentir náusea durante a varredura, é por que você está eliminando lixo emocional do passado, é muito bom sinal.