Preparando a Mente para a Prática de Anapanasati
Através do Cultivo da Alegria
Ajaan Brahmavamso
Nesta manhã eu gostaria de falar um pouco mais sobre alguns meios habilidosos para auxiliar a prática de meditação, em especial, aquilo que se pode ler nos ensinamentos do Buda, repetidas vezes, que a causa próxima de alcançar samadhi, estados mentais de profunda paz, é uma mente feliz, uma mente imbuída de alegria.
É muito bom lembrar que uma mente cansada, deprimida, raivosa ou chateada, não é de fato o tipo de mente que pode ser trabalhada e usada para alcançar esses estados mentais pacíficos e tranqüilos. Nesses casos, vocês vão notar que se distraem, que ficam imaginando, ou acabam caindo no sono durante sua prática de meditação.
Portanto, nessa prática de meditação, nós, intencionalmente, fazemos surgir a alegria na mente, seja quando estamos meditando, seja quando estamos num retiro de meditação. Essa é uma das razões pelas quais nós tentamos fazer retiros de meditação em lugares bem tranqüilos e belos. Lugares onde alguém pode usar sua percepção para fazer surgir alegria.
Assim como muitas coisas na vida, a alegria está sempre lá. É só uma questão de voltar a atenção para percebê-la, para se permitir encantar com o som dos passarinhos lá fora, com a brisa batendo no rosto, ou perceber que este fim de semana, que este retiro de nove dias, é uma oportunidade de vocês estarem livres de todos os seus fardos e responsabilidades diárias. Vocês não têm que fazer nada.
Vocês não têm que se preocupar com nada. Foquem a mente no que há de positivo nessa situação, procurem felicidade, procurem alegria. Vocês vão descobrir que a alegria está aqui, e vocês podem começar se deleitando com a beleza do jardim, com a brisa ou com o canto dos passarinhos. E isso serve como uma preparação para a mente.
Isso faz a mente se sentir feliz. Dá alegria a ela. A alegria expande e dá energia à mente, e, essa mente mais ampla, energética e feliz é uma mente muito mais fácil com que se trabalhar. Com esse tipo de mente é muito mais fácil alcançar os resultados da meditação que vocês estão buscando.
Um dos princípios básicos que os monges conhecem muito bem é que dá para reconhecer alguém que se tornará um bom meditador em pessoas que têm o coração leve e vivem sorridentes. Os monges felizes geralmente são bons meditadores; o mesmo se aplica aos laicos felizes.
Aqueles que são felizes, que sabem sorrir, que podem levar a vida de uma forma tranqüila e leve, aqueles que sabem procurar e encontrar alegria na vida geralmente são aqueles que conseguem atingir estados mais profundos de concentração. Uma mente feliz e uma mente que se concentra facilmente estão intimamente relacionadas.
Portanto, um pré-requisito importante para a prática de meditação é desenvolver essa felicidade e sempre buscar meios de desenvolvê-la, seja desfrutando seu café da manhã, seja contemplando a natureza deste local, seja refletindo que vocês têm liberdade nesses nove dias, seja usando outros métodos para desenvolver um estado mental feliz.
Um dos métodos para se desenvolver um estado mental feliz é a meditação de amor-bondade (metta), porque ela geralmente traz felicidade e alegria à mente. Na meditação de metta se cultiva um sentimento de cordialidade por todos os seres.
Muitos de vocês estão bem familiarizados com esse tipo de meditação, mas eu gostaria de estender esse tipo de meditação para uma área interessante que vocês talvez queiram experimentar.
É uma área que eu achei ser muito útil. Essa área é o desenvolvimento da meditação de amor-bondade, metta, em relação à sua respiração. O sentimento de amor-bondade é aquele que engloba, aceita, nos faz sentir simpatia e gratidão com relação ao objeto.
Então, se vocês estiverem desenvolvendo amor-bondade direcionado à respiração, a cada inspiração e expiração, vocês cultivam o mesmo tipo de atitude e reflexão porque essa respiração tem lhe servido durante toda a sua vida, ela tem lhe mantido vivo e lhe nutrido.
Muito freqüentemente nós não valorizamos aquilo que acontece o tempo todo; nós acabamos sendo ingratos. Nós simplesmente deixamos o ar entrar e sair sem nem ao menos levar em conta esse fato.
Desenvolver esse sentimento de amor-bondade direcionado à inspiração e à expiração é um modo de manter a atenção na respiração, com simpatia, gratidão, e uma energia leve e carinhosa. Vocês podem olhar para a sua respiração como se estivessem olhando para os seus pais, para alguém que lhes nutriu, que lhes sustentou e que lhes manteve vivos.
Ou então vocês podem olhar para ela como se ela fosse um filho de vocês, por ela ter cuidado de vocês até aqui, agora vocês podem proteger e cuidar dela também. Se vocês olharem para a respiração com esse tipo de atitude, com amor, bondade e simpatia, será mais fácil manter a atenção na respiração.
Isso ocorre porque vocês começam a dar valor a ela, e aquilo que cuidamos, aquilo com que nos preocupamos, causa uma marca mais profunda na percepção. Outra razão é que a meditação de amor-bondade, quando ganha força, é sempre um tipo de meditação alegre, ela traz alegria à mente a cada respiração.
Dessa forma, quando eu faço esse tipo de meditação, não estou apenas observando a respiração. Estou observando a respiração com metta, agradecendo a respiração, cuidando da respiração, amando a respiração por ela cuidar de mim, como se ela fosse um amigo querido. Quando eu inspiro, inspiro com esse sentimento de zelo que abraça a respiração do início ao fim. Observo a expiração com o mesmo sentimento de bondade e zelo que a abraça. E para mim, além da percepção da respiração ficar mais clara na mente, a respiração se torna algo mais agradável de se observar.
Se o objeto em que vocês estão tentando focar a mente estiver acompanhado por um certo nível de alegria, fica muito mais fácil observá-lo. Se o objeto em que vocês estão tentando focar é doloroso, inquietante ou perturbador é muito mais difícil observá-lo. Se for um objeto do tipo neutro, devido ao tédio, é muito fácil que ele desapareça gradualmente do foco da mente. Contudo, se vocês desenvolverem a percepção do objeto como algo atrativo, alegre, belo, digno de cuidado, então ficará muito fácil focar a atenção nele.
Portanto esse é um dos meios habilidosos - desenvolver amor-bondade em torno da experiência da respiração, de forma a permitir que a atenção seja mais facilmente aplicada em cada respiração. A respiração não se torna algo neutro. Ela se torna algo alegre, atrativo, belo, e, também vocês vão ver que ela se torna mais fácil de ser observada.
O amor-bondade não somente torna a respiração um objeto fácil de ser observado, mas também começa a alimentar um estado mental que é muito importante em estágios mais avançados de meditação, que é o estado emocional da mente.
Se alguém vai levar a meditação a níveis mais profundos, especialmente se alguém estiver para entrar em um dos estados de Jhana, essa pessoa deve ser capaz de se sentir à vontade com esses poderosos estados emocionais - porque se alguém for descrever algo como um Jhana, a descrição é similar à de estados emocionais da mente, um estado de grande êxtase e poder, o que é muito mais próximo dos estados emocionais do que dos estados racionais da mente.
Para isso pode-se fazer poderosas e efetivas preparações desenvolvendo, intencionalmente, aquela amabilidade e felicidade que são trazidas pela meditação de metta - fazendo isso vocês estão, de fato, preparando a mente muito bem para aceitar as mais profundas emoções dos Jhanas.
Por essa razão, se uma pessoa estiver desenvolvendo a meditação de metta na respiração ou a meditação de metta em geral, isso se torna uma ferramenta muito útil e habilidosa para se incorporar na prática.
A meditação de metta não só traz um estado mental feliz e pacífico, mas também um aspecto emocional da mente que prepara vocês para aceitarem os estados emocionais dos Jhanas. Nos Jhanas vocês, na verdade, sentem o estado mental. Vocês não pensam sobre o estado. Portanto essa é uma das formas úteis e habilidosas que vocês podem experimentar usar durante este retiro de meditação - desenvolver o amor-bondade em relação à respiração assim como, de vez em quando, treinar a meditação de metta para tornar a mente mais clara.
Entretanto, há muitos outros meios habilidosos que alguém pode usar para iluminar e trazer alegria para a mente, e esses meios fazem parte das meditações que o Buda ensinou. Três dessas meditações são reflexões sobre o Buda, o Dhamma e a Sangha, o que é uma das razões porque quero incorporar a recitação nesse retiro.
Esses cânticos que nós fazemos são reflexões sobre o Buda, o Dhamma, a Sangha e suas respectivas qualidades. E, se alguém tiver sensibilidade ao que essas três palavras significam - o Buda, o Dhamma e a Sangha - então refletir sobre elas, manter o significado dessas palavras na mente e sustentar a atenção no significado dessas palavras por tempo suficiente, muito freqüentemente trará fortes sentimentos de felicidade e alegria.
É um meio de trazer luminosidade, felicidade e alegria para a mente, isso serve como um aquecimento para a prática de meditação. Após isso segue-se para a observação da respiração. Essa é outra forma de trazer alegria à mente.
Para aqueles que são budistas tradicionais esse é um método muito efetivo de se começar a meditação. Pelo que sei, na Tailândia, é muito comum ensinarem as pessoas a começar a sessão de meditação prestando homenagem mentalmente ao Buda, ao Dhamma e à Sangha.
Para um budista tradicional, só de prestar homenagem com sua mente, refletir naquelas qualidades, pode trazer muita felicidade e alegria, trazer uma leveza, um sentimento de grande admiração.
Isso serve como uma preparação mental para a meditação focada na respiração que é feita em seguida. Se vocês acharem que têm habilidade para fazer surgir convicção ou confiança nas qualidades do Buda, do Dhamma e da Sangha, e se vocês tiverem facilidade em fazê-lo e além disso isso lhes traz alegria e estados mentais felizes, então eu encorajo que isso seja feito durante o retiro de meditação.
Comecem a meditação refletindo naquilo que o Buda fez, em quem ele foi, na bondade e na compaixão demonstradas por ele, e tudo mais que a palavra significa para vocês.
Reflita na maravilhosa bênção que é para o mundo o fato de que tenha existido um ser como o Buda e o grande benefício que a vida dele trouxe a todos nós. Nutrindo tais pensamentos deve começar a surgir uma certa leveza no coração, uma certa alegria, que é justamente o tipo de preparação mental sobre a qual estou falando. Vocês também podem refletir sobre o Dhamma, os ensinamentos que vocês ouviram; aquilo que diminuiu seus sofrimentos, aquilo que soou tão belo e encantador.
Se alguém desenvolve um gosto por algo é possível que ele desenvolva amor por isso. Eu lembro de ter visto na minha juventude pessoas ouvindo uma peça musical e começarem a chorar.
Se vocês puderem desenvolver certa apreciação pelo Dhamma, e vocês lerem um ensinamento muito profundo do Buda, ou até mesmo o ouvirem, repito, isso pode trazer lágrimas de alegria aos seus olhos.
Se vocês forem desse temperamento, somente refletir e relembrar de alguns dos ensinamentos do Buda, alguns de seus favoritos trechos do Dhamma, vai também trazer esse sentimento de leveza, alegria e felicidade à mente; então vocês podem usar isso, como o começo, como um ponto de partida para a meditação focada na respiração.
Caso não seja o Buda, nem o Dhamma, pode ser a Sangha. Relembre-se de alguns monges e monjas que vocês conheceram, que lhes inspiraram, alguns pelos quais vocês tenham grande respeito, mesmo aqueles que vocês não conheceram, mas apenas chegaram a ler a respeito. Desenvolva uma apreciação por esses membros da Sangha.
Ou então desenvolva essa mesma idéia com relação a toda a Sangha ao longo da história - isso deve ser capaz de lhes trazer felicidade.
Por muitos anos fui monge na Tailândia e pude visitar grandes professores de lá. É muito simples para mim visualizar um desses grandes monges que conheci pessoalmente e apreciar os benefícios que eles trouxeram ao mundo e os benefícios que eles ainda estão trazendo. Somente imaginando isso, cultivando esse pensamento e desenvolvendo-o, minha mente fica preenchida de gratidão, amor, leveza e alegria por esses seres existirem no mundo.
Isso me dá uma base para o desenvolvimento da felicidade, e então, poder desenvolver a meditação na respiração. Então, se vocês tiverem esse tipo de mente, vocês podem tentar desenvolver as reflexões sobre o Buda, o Dhamma e a Sangha, desenvolvendo felicidade e alegria.
As meditações ou reflexões nas qualidades do Buda, do Dhamma e da Sangha não são poderosas o suficiente para levá-los a Jhana. O propósito delas é de superar os obstáculos mais grosseiros ao desenvolvimento de estados de profunda tranqüilidade, estabilidade e quietude.
Em particular, elas servem para desenvolver uma mente feliz, uma vez que essa mente feliz esteja estabelecida pode-se ir mais adiante mudando de objeto de meditação para algo como a respiração, então pode-se ir mais adiante e entrar em Jhana.
Uma das outras formas de se desenvolver felicidade e alegria na meditação é uma que eu uso muito, especialmente agora, em meu papel como monge sênior no monastério em Serpentine.
Essa forma se trata de refletir, trazer à memória, relembrar, todos os serviços que foram dados e prestados. Algumas vezes, no Ocidente, nos recomendam, nos ensinam, a não nos elogiar ou pensar muito em nossa bondade ou aquilo que nós fizemos pelo bem de outros. Mas no ensinamento do Buda não se pode encontrar palavras que desencorajem vocês pensarem em tais coisas.
De fato, vocês são encorajados a refletirem sobre sua generosidade passada, serviços prestados, e refletir nisso várias e várias vezes. Se vocês conseguirem trazer à mente tudo que vocês fizeram pelos outros, tudo que é bom, nobre e afetuoso, todo esse bom kamma que vocês fizeram em dias passados, semanas passadas ou anos passados, e refletirem muito sobre isso, novamente surgirá felicidade e alegria na mente.
A razão pela qual atualmente uso essa meditação é que algumas vezes posso estar fazendo várias atividades externas - indo à cidade, correndo o dia todo, fazendo isso e aquilo para os outros - e muito freqüentemente, quando volto para o monastério depois do fim de semana, estou muito, muito cansado, fisicamente desgastado por fazer tantas coisas.
A única forma que encontrei para meditar nessas noites é sentar e pensar em tudo de bom que fiz. Não é para me deixar orgulhoso, mas isso me deixa feliz e traz energia e alegria para minha mente. Não tenho medo de, por exemplo, chorar de alegria por causa de todo o serviço que fiz durante o dia, porque isso realmente me faz sentir dessa forma. Isso me traz a emoção da felicidade e da alegria.
Uma vez que vocês pratiquem assim vocês vão perceber que todo o serviço que prestaram aos outros, ou todo o mérito que fizeram durante o dia, ou durante suas vidas, pode liberar uma fonte de energia e poder que pode ser usada na meditação.
Isso se torna uma fonte de energia muito poderosa, uma fonte muito forte de alegria. Uma vez que a felicidade e alegria estejam fortes, colocando o foco da mente na respiração ela se torna muito fácil de observar.
Além da respiração ficar mais clara a mente obteve energia. A mente obteve felicidade para que possa atingir estados de profunda meditação, e isso foi obtido com os exercícios preliminares de desenvolver a reflexão de sua bondade no passado, fazendo uma reflexão sobre o Buda, o Dhamma e a Sangha, ou refletindo sobre o amor-bondade.
Isso é parte do treinamento de meditação para sermos capazes de praticar a meditação na respiração - meditação na respiração não é apenas ser capaz de observar a respiração. É também saber como se preparar para observar a respiração, saber como fazer esses exercícios preliminares e saber quando eles são necessários.
Algumas vezes as pessoas não praticam a reflexão sobre o Buda, o Dhamma e a Sangha porque elas têm medo disso; talvez seja por causa de algum condicionamento aversivo contra qualquer tipo de fé na mente, gerado por experiências no Cristianismo ou em outras religiões. Mas vocês têm total controle sobre a fé que queiram desenvolver. Vocês podem parar quando quiserem, mas a fé é uma força na mente que vocês podem usar a seu favor. Ela não será usada contra vocês.
O poder dessas emoções não é perigoso contanto que a fé seja balanceada com a sabedoria e, na maioria dos Ocidentais, a sabedoria é muito mais forte que a fé. Contanto que a fé e a sabedoria estejam equilibradas, não há perigo. Somente quando a fé é muito forte e a sabedoria muito fraca, pode haver algum perigo.
Mas aqui vocês podem se sentir seguros que não há nada a temer no desenvolvimento desses tipos de mente com fé. De fato, esse tipo de mente com fé, através da confiança e da alegria, vai na verdade servir como um propulsor para vocês entrarem em estados mais profundos de meditação. Portanto essas são as formas de preparar a mente para fazer a meditação baseada na respiração.
Se alguma vez vocês acharem que suas mentes estão entorpecidas ou sem energia, e estiverem achando difícil seguir as respirações, vocês podem tentar uma dessas meditações; ou a meditação de amor-bondade, ou sobre o Buda, o Dhamma, a Sangha, ou a meditação sobre a bondade no passado.
Ou, no caso de isso não funcionar, desenvolvam alegria simplesmente por sentar ao ar livre, caminhar ao ar livre, e desenvolver essa percepção, essa percepção positiva, de que temos um corpo saudável, um corpo razoavelmente saudável.
Vocês já encontraram a oportunidade de virem a um retiro de meditação. Vocês já fizeram um enorme quantidade de bom kamma, muitos méritos, só de chegarem até aqui. Isso deveria trazer felicidade e alegria às suas mentes, e caso isso ocorra, isso deve ser usado para alcançar estados mais profundos de meditação.
Dessa forma, qualquer ação bondosa que vocês fizeram durante o dia, durante as semanas, durante os anos, tragam isso à mente, desenvolvam uma reflexão sobre isso. À medida que vocês refletirem mais e mais sobre o lado bom de suas vidas, o belo, o leve, o afetuoso, o generoso, o lado maravilhoso, isso trará felicidade e alegria, e vocês vão ver que é muito fácil desenvolver meditações cheias de êxtase. Não tenham medo dessa emoção de auto-estima. Usem esses meios hábeis juntamente com a técnica básica da meditação focada na respiração.
Aulas teórico-práticas com Julio Cesar Tafforelli. Fone 3422-9135 e Cel 9760-2834
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sábado, 30 de abril de 2011
Meditação de Metta (Amor bondade)
Bhante Henepola Gunaratana
Algumas vezes a prática da meditação de insight (vipassana) pode ser interpretada como sendo um tipo de prática que faz com que o meditador se torne um ser sem coração ou indiferente, como um vegetal que não possui amor e compaixão pelos outros seres vivos
Devemos, no entanto, lembrar que o Buda recomendou de maneira enfática que cultivemos quatro moradas divinas ou estados sublimes da mente: amor bondade (metta), compaixão (karuna), alegria altruísta (mudita) e equanimidade (upekha).
O primeiro desses quatro é tão importante que o Buda disse que alguém que dependa inteiramente de outras pessoas para viver (isto é, um monge ou monja) poderá pagar a sua dívida para com os seus patrocinadores através da prática de metta, dirigida a todos os seres vivos, mesmo que seja por um período de tempo tão curto quanto uma fração de segundo por dia.
O Karaniya Metta Sutta diz: "…sempre que estiver desperto, cultive essa atenção plena: a isto se denomina uma morada divina no aqui e agora."
A atenção plena é um dos fatores mais importantes em todo o conjunto dos ensinamentos do Buda. Desde o dia que ele alcançou a iluminação, até o dia em que ele faleceu aos 80 anos, em quase todos os discursos do Dhamma ele enfatizou a atenção plena. Ao equiparar a prática de metta à atenção plena podemos entender a importância dessa prática dentro do conjunto dos ensinamentos do Buda.
O Buda aperfeiçoou a prática de metta para alcançar a Iluminação, equilibrando-a com a sabedoria. Mesmo após haver alcançado a Iluminação, a primeira coisa que ele fazia todos os dias era penetrar a realização da Grande Compaixão, que é o fruto da prática de metta. Em seguida ele inspecionava o mundo para ver se havia seres que ele poderia auxiliar na compreensão do Dhamma.
Esses quatro estados sublimes da mente são denominados Brahma Vihara, o comportamento ideal ou atitude ideal. Os três primeiros possuem força suficiente para permitir alcançar os primeiros três jhanas e o último para alcançar o quarto jhana.
A sua importância na prática da meditação vipassana fica evidente pelo fato deles estarem incluídos no segundo elemento do Nobre Caminho Óctuplo. Na verdade, nenhuma concentração é possível sem esses estados sublimes da mente, porque na ausência deles a mente fica cheia de raiva, rigidez, preocupações, temores, tensão e inquietação.
Antes de nos dedicarmos à prática desses estados nobres da mente, devemos superar a raiva, que é uma maneira impensada de desperdiçar a própria energia. A raiva, quando ativa, se compara à água fervendo ou, quando não é expressa, ao preconceito.
Ela pode destruir a nossa prática de meditação e o treinamento das virtudes. A pessoa enraivecida se compara a um pedaço de lenha meio queimado deixado em uma pira funerária. Ambas as extremidades da lenha estão queimadas e transformadas em carvão e o meio está coberto com imundícies.
Ninguém pegaria esse pedaço de lenha para queimar ou para qualquer outro propósito porque ficaria com as mão imundas. Da mesma forma a pessoa enraivecida será evitada de todas as formas, se possível, por todos.
Precisamos começar a prática de metta com nós mesmos primeiro. Algumas vezes alguns de vocês podem se perguntar porque devemos amar a nós mesmos primeiro. Isso não seria amor próprio que conduz ao egoísmo? Se você investigar a sua mente cuidadosamente no entanto, irá se convencer de que não existe nenhuma outra pessoa em todo o universo que você ame mais do que você mesmo.
O Buda disse, “Tendo atravessado todos os quadrantes com a mente, ele não encontra em nenhum lugar alguém mais querido do que ele mesmo. Do mesmo modo, toda pessoa considera a si mesma como a mais querida; por conseguinte quem ama a si mesmo não deveria ferir os outros.” (Mallika Sutta).
Quem não ama a si mesmo será incapaz de amar aos outros. Da mesma forma, quem ama a si mesmo irá sentir o impacto de metta e poderá então compreender quão belo seria se todos os corações no mundo estivessem plenos com o mesmo sentimento de metta.
O tipo de amor bondade que queremos cultivar não é o amor comum tal como é entendido no uso diário. Quando você diz, por exemplo, "eu amo tal pessoa" ou "tal coisa", o que você realmente está querendo dizer é que você deseja a aparência, comportamento, idéias, tom da voz ou a atitude em geral daquela pessoa, em relação a você particularmente, ou em relação à vida de forma geral.
Se aquela pessoa mudar as coisas pelas quais você a deseja, você poderá decidir que não a ama mais. Se as preferências, caprichos e fantasias das pessoas mudarem, elas não mais dirão "eu amo tal pessoa".
Nessa dualidade de amor-ódio você ama uma pessoa e odeia outra. Você ama agora e odeia depois. Você ama quando quiser e odeia quando quiser. Você ama quando tudo está bem e sem problemas e odeia quando alguma coisa dá errado no relacionamento entre você e a outra pessoa.
Se o seu amor muda dessa forma de tempos em tempos, de lugar em lugar e de situação para situação, então o que você chama de "amor" não é metta mas sim desejo, cobiça ou luxúria - de nenhuma forma isso é amor.
O tipo de amor bondade que queremos cultivar através da meditação não possui um oposto ou um motivo velado. Assim, a dicotomia amor-ódio não se aplica ao amor bondade cultivado através da sabedoria ou da atenção plena, pois ele nunca irá se transformar em ódio à medida que as circunstâncias mudarem.
O verdadeiro amor bondade é uma faculdade natural que está oculta sob o amontoado de desejo, raiva e ignorância. Ele não pode ser dado. Nós precisamos encontrá-lo dentro de nós mesmos e cultivá-lo com a atenção plena.
A atenção plena o descobre, cultiva e mantém. A consciência do "eu" (ahankara) se dissolve com a atenção plena e o seu lugar é tomado pelo amor bondade isento de egoísmo.
Por causa do nosso egoísmo odiamos algumas pessoas. Queremos viver de certo jeito, queremos fazer certas coisas ao nosso modo, perceber as coisas de uma forma particular; e não de outro jeito.
Se outras pessoas não concordarem com as nossas opiniões, nossos jeitos e nossos estilos, não só as odiaremos, mas também nos tornaremos tão cegos e irracionais, devido à falta de atenção plena, que poderemos chegar ao ponto de negar-lhes o direito à vida.
Quando você pratica metta você não fica colérico por não receber algum tipo de retribuição de pessoas e seres para os quais você irradiou o seu metta, porque ao irradiar-lhes o seu amor bondade você não possuía nenhum motivo oculto.
Nessa rede de amor bondade você não somente inclui todos os seres tal como eles são, mas você deseja que todos eles, sem qualquer discriminação, sejam felizes.
Você irá se portar de maneira gentil e agradável para com todos e irá falar a respeito deles de forma gentil e agradável tanto na presença como na ausência deles.
Ao meditar as nossas mentes e corpos se tornam naturalmente relaxados. Os obstáculos são dissolvidos. A sonolência e o torpor por exemplo são substituídos pela vigilância. A dúvida é substituída pela confiança, a raiva pela alegria, a inquietação e a preocupação pela felicidade.
Na medida que o ressentimento é substituído pela alegria, o amor bondade escondido no nosso subconsciente se manifesta fazendo com que fiquemos ainda mais em paz e felizes. Nesse estado de meditação obtemos concentração e superamos a nossa cobiça.
Podemos ver como a meditação destrói a raiva e cultiva metta, que por seu lado dá sustentação para a nossa prática de meditação. Juntos, os dois operam em uníssono, culminando com a concentração e o insight.
Assim, para capturar na própria mente a energia do amor bondade a pessoa precisa se aperfeiçoar através da prática da meditação da atenção plena.
A observação atenta dos nossos estados mentais pode fazer com que tenhamos consciência do dano, destruição e dor causados por certos tipos de pensamentos. Enquanto que outros são cheios de paz e alegria.
Com isso, a nossa mente passa a rejeitar aquilo que é prejudicial e a cultivar o que é pacífico e prazenteiro. Não aprendemos isso nos livros, com mestres, amigos ou inimigos, mas através da nossa própria prática e experiência.
Quando os pensamentos prejudiciais surgem aprendemos a não lhes dar atenção e quando pensamentos benéficos surgem nós permitimos que eles se expandam e permaneçam por mais tempo na mente. Assim aprendemos com a nossa própria experiência como pensar de forma mais saudável.
Essa prática cria as condições na nossa mente para que o amor bondade cresça. Isso significa que pensamentos benéficos que surgem na nossa mente por si mesmos, podem ser gerados de acordo com a nossa própria vontade, mais tarde.
Essa prática nos ajuda a compreender que o amor bondade pode se desenvolver e crescer no fundo da nossa mente. Fatores ambientais ou circunstanciais desempenham um papel importante nesse cultivo. Nenhum ser humano está totalmente desprovido de amor bondade, não importa o quão cruel ele ou ela aparentem ser. O amor bondade escondido no subconsciente de cada pessoa deve ser trazido à tona através do desenvolvimento da habilidade da atenção plena.
"Mitra" na literatura védica e "Mitta" na literatura em Pali significam o sol. A natureza do sol pode ser chamada de "Maitri" ou "Metta". Maitri ou Metta também significam amor bondade ou amizade.
Talvez a razão porque o amor bondade seja assim chamado é porque gera sentimentos calorosos em relação a todos os seres. Da mesma forma como o calor vem do sol, aquele que possui amor bondade possui uma coração pleno de calor para com todos. Da mesma forma como o sol brilha sem discriminação sobre todos os objetos no mundo, "Metta" ou "Maitri" permeiam todos os seres sem qualquer discriminação.
Da mesma forma como o sol dissipa a escuridão, o amor bondade destrói a escuridão da raiva. Da mesma forma como alguns objetos absorvem melhor o sol do que outros, alguns seres vivos absorvem melhor o amor bondade do que outros. Os seres que absorvem mais amor bondade do que outros são aqueles que aprendem a relaxar devido ao seu Kamma.
O Buda cultivou metta tão potente que o fez amar o seu pior inimigo, Devadatta, que tentou matá-lo várias vezes. Ele amava o assaltante e assassino Angulimala, que também tentou matá-lo. Ele amava Dhanapala, um elefante que tentou matá-lo. Ele amava a todos da mesma forma como amava o seu filho Rahula. Quando Devadatta morreu, ao ir ter com o Buda, os monges perguntaram ao Buda qual seria o seu futuro. O Buda disse que no futuro ele se converteria num Buda silencioso. Assim é o amor bondade, guiado pela atenção plena, que nos permite viver em paz e harmonia.
O amor bondade ou metta não pode ser cultivado pela mera repetição de palavras de amor bondade. Esse tipo de repetição é muito parecido com a repetição de uma receita para um paciente num hospital ou de um cardápio para uma pessoa faminta em um restaurante. Repetir uma lista de coisas nunca irá produzir o resultado tangível das palavras da lista. O amor bondade é algo que tem que ser cultivado com intenção por nós mesmos nas nossas mentes.
O amor bondade é desenvolvido através da meditação. Quando a mente está relaxada, o meditador é capaz de perdoar e esquecer todas as ofensas que foram cometidas contra ele.
A pessoa pode praticar metta através da meditação da tranqüilidade (samatha). Mas isso não dura para sempre porque a tranqüilidade que é alcançada é apenas temporária.
O amor bondade cultivado através de vipassana, por outro lado, é perpétuo, porque os efeitos da meditação vipassana se enraízam profundamente na mente da pessoa. A meditação vipassana abranda a mente, e o amor bondade, cultivado em conjunto com o abrandamento da mente, irá lançar raízes profundas na mente.
Quem pratica a meditação vipassana vê a impermanência nas formas, sensações, percepções, formações mentais e consciência. Eles podem comparar as mudanças nesses agregados com aqueles das outras pessoas.
Dessa forma eles não vêm nenhuma pessoa ou coisa com ódio. Se eles perguntarem a si mesmos quem eles odeiam, eles não irão encontrar nenhum indivíduo para odiar. Da mesma forma, eles não encontrarão nenhum indivíduo pelo qual possam cultivar o amor bondade. Tudo que eles percebem é o fenômeno do fluxo contínuo dos eventos que ocorrem a cada momento, consigo mesmo e com os outros.
Isso os capacita a perdoar e esquecer as ofensas que outros agregados tenham cometido contra eles, ou seus amigos, ou parentes. A meditação de metta é o processo verdadeiro que genuinamente desenvolve as nossas nobres qualidades, que podem promover a paz e a felicidade. Não podemos inculcar amor bondade nas mentes das outras pessoas. Nem as outras pessoas podem fazer o mesmo conosco.
Você não poderá inculcar amor bondade em mim pela força se o meu Kamma impedir minha mente de aceitá-lo. Cada um de nós precisa preparar o terreno para que o amor bondade se desenvolva e cresça dentro da nossa mente.
Você também deve tê-lo dentro de si antes que possa ensiná-lo aos outros, da mesma forma como você não pode ensinar algo para alguém se você não conhecer o assunto primeiro.
Suponha que você tente ensinar algo para outras pessoas sem conhecer o assunto. Você irá passar por tolo. Quanto mais você conhecer o seu assunto, melhor será para ensiná-lo aos outros.
Da mesma forma, quanto mais treinada for a sua mente na disciplina do amor bondade, melhor será para ensiná-la ao mundo como cultivá-la. É óbvio que você não precisa esperar até que o seu aprendizado e treinamento estejam completos para iniciar o seu ensino.
Enquanto pratica o amor bondade você estará ganhando experiência prática. Você não poderá praticar no vazio. Tem que haver outros seres vivos para que você possa praticar de forma a ganhar experiência.
Portanto, ao mesmo tempo que você treina praticando o amor bondade, estará também treinando os outros nessa prática. Enquanto ensina você aprende. Enquanto aprende você ensina.
Até mesmo os Bodisatvas, enquanto se empenham com vigor na própria salvação, ajudam o mundo. A sua prática os auxilia a alcançar a iluminação primeiro, para assim serem capazes de ajudar o mundo a alcançar o mesmo objetivo.
Se eles ensinarem os outros a praticar o amor bondade sem que eles mesmos o pratiquem, eles não alcançarão a iluminação, nem serão capazes de ajudar os outros a praticar o amor bondade.
Cada um de nós precisa cultivá-lo por si mesmo e para si mesmo. Você não pode cultivá-lo pelos outros. Nem os outros podem cultivá-lo por você.
Se eu prometer salvá-lo praticando o amor bondade sem que você o pratique, então somente eu livrarei a minha mente da má vontade, pois não serei capaz de livrar a sua mente desse estado negativo.
Da mesma forma, se você cultivar o amor bondade para mim e eu cultivá-lo para você, então, ambos estaremos praticando. Eu não deveria esperar que você pratique o amor bondade por mim. Nem você deveria esperar que eu o pratique por você.
Se você disser, "Não pratique o amor bondade que eu o farei por você", isso não funciona. Não diga "Como posso cultivar amor bondade por tal pessoa que me odeia?" Se você odeia quem lhe odeia, ambos estarão fazendo o mal.
Ao fazer essa pergunta o que você está dizendo, em outras palavras é, "Como posso ser bom se os outros são maus?" Ou "Como posso evitar cometer crimes se os outros cometem crimes?" Você não pratica amor bondade porque os outros o cultivam. Você quer cultivá-lo justamente porque os outros não o cultivam.
Em última análise a prática do amor bondade depende do desenvolvimento espiritual e do Kamma da pessoa. As mentes de algumas pessoas possuem um Kamma tão desafortunado que para elas é quase impossível sonhar quanto à eficácia do amor bondade quanto mais praticá-lo, pois o seu Kamma impede que elas vejam o benefício do amor bondade.
Se você for ensinar uma classe de alunos irá notar que o desempenho dos alunos não é igual. Mesmo gêmeos idênticos possuem desempenhos distintos. A individualidade é a forma de expressar o desenvolvimento emocional, intelectual, físico e espiritual condicionado pelo Kamma da pessoa. Nem mesmo o Buda pode interferir no Kamma de uma pessoa. Nós não somos criados iguais, nascemos diferentes uns dos outros de acordo com o nosso próprio Kamma que divide os indivíduos com qualidades superiores e inferiores.
Se você praticar um ato com bom Kamma e desfrutar do seu resultado, eu não serei capaz de roubá-lo ou tomá-lo de você seja pela força ou por meios amigáveis. Se eu praticar o amor bondade para todos os seres poderei limpar a minha mente da raiva.
Assim a prática do amor bondade se manifesta no meu comportamento. Começar a prática do amor bondade é começar a prática de bom Kamma, pois nenhum bom Kamma pode ser praticado sem amor bondade.
Ao apresentar os Quatro Fundamentos da Atenção Plena o Buda disse aos meditadores que superassem a cobiça e a raiva e o motivo é que durante a prática da atenção plena o meditador irá encontrar muitos problemas com ambos, a cobiça e a raiva. Com freqüência as pessoas perguntam "Podemos eliminar a dor, o sofrimento e a raiva das outras pessoas através do cultivo interior de amor bondade?"
Até mesmo o Buda é incapaz de erradicar a dor e o sofrimento de outras pessoas desejando-lhes a paz e a felicidade. O Buda disse: "Você precisa trabalhar a sua própria salvação. Os Budas apenas ensinam".
Como cada indivíduo possui a sua parcela de Kamma, cada um tem que se dedicar para obter a sua própria salvação. Se pudéssemos eliminar o sofrimento dos outros desejando que eles se libertem da dor e do sofrimento, então fazer com que todo o mundo tivesse paz e felicidade seria muito fácil.
Se isso fosse possível então da mesma forma, também deveria ser possível que uma pessoa vingativa destruísse todos os seus inimigos desejando-lhes: "Que eles sejam feios, que eles sintam dores, que eles não sejam prósperos, que eles não sejam ricos, que eles não sejam famosos, que eles não tenham amigos e que eles após a morte renasçam em estados miseráveis de existência".
Na realidade, aqueles que fazem esses tipos de desejos inábeis é que poderão ficar feios, com dores, sem prosperidade, sem riqueza, sem fama, sem amigos e após a morte poderão renascer em um estado miserável de existência, porque eles cometem um Kamma ruim com a mente, por terem um desejo consciente cheio de raiva. Pensamentos ruins têm o poder de fazer com que os outros se sintam mal e bons pensamentos têm o poder de fazer com que se sintam bem.
Você pode se perguntar, "Se no sentido mais fundamental não existem seres, ou em nenhum sentido algum tipo de eu, ou se existem seres em um sentido condicional e a minha prática de amor bondade não elimina a sua dor e sofrimento, devido ao seu próprio Kamma, porque devo cultivar o amor bondade?"
Você deve se lembrar que quando a sua mente está cheia de pensamentos ruins ou pensamentos cheios de raiva por exemplo, você fala de uma forma rude com a linguagem grosseira, praguejando, difamando e caluniando. Você fala de forma maldosa.
Quando a sua mente está cheia de ódio, tudo que você vê gera dor; tudo que você ouve gera dor; tudo que você cheira gera dor; tudo que você come faz com que fique enfermo, tudo que você toca é desagradável para o corpo; e tudo que você pensa é doloroso.
Você se torna vingativo. Você sempre fala mal dos outros, nunca vê nada de bom nos outros. Você se torna muito crítico. Você sempre encontra defeitos nos outros. Você nunca aprecia as coisas boas que eles fazem.
Você estará enciumado todo o tempo. Você se torna muito arrogante, ingrato, malvado, com a mente muito mal intencionada. Você sempre pensa em causar dano aos outros. Você se delicia em ver os outros sofrerem, com problemas, com dificuldades.
Você fica muito feliz em ver os outros fracassarem na vida. Assim o seu comportamento ultraja as pessoas. Facilmente você faz com que as outras pessoas se sintam mal.
O seu comportamento será muito desagradável para as outras pessoas. Todos que estiverem ao seu redor sentirão nojo em ter que trabalhar com você. Elas ficarão com dor de estômago e dor de cabeça. Elas ficarão muito nervosas por estarem próximas de você. É assim que os seus pensamentos inábeis afetam as outras pessoas.
Por outro lado se a sua mente estiver plena com amor bondade, você irá falar de forma gentil, bondosa e amigável. Tudo que você ver será motivo para alegria; tudo que você ouvir será agradável. A sua comida terá um sabor melhor. Tudo que você tocar fará com que fique satisfeito. Tudo que você cheirar será agradável. Tudo que você pensar será muito agradável e tranqüilo. Você não medirá esforços para ajudar as outras pessoas. Você se tornará bastante compreensivo e circunspecto. Você terá muita paciência. Você se tornará muito amoldável. Você sempre dirá a verdade. Você sempre irá procurar agradar aos outros. Você estará preparado para esquecer o mal que lhe fizeram e perdoar as pessoas. Você sempre estará relaxado. Você não terá um riso falso e desnecessário, mas um sorriso amigável. Assim as pessoas irão amar trabalhar com você. Elas se sentirão confortáveis em sua companhia. As suas mentes também se tornarão suaves e gentis em relação a você. Elas protegerão você. Elas não falarão mal de você pelas suas costas mas, sim, bem. O seu nível de produtividade aumentará. A sua reputação aumentará.
Além disso, você poderá perguntar "Qual é o proveito de praticar o amor bondade para com todos os seres dizendo: ‘Todos os seres vivos que existem, fracos ou fortes, sem exceção, compridos, grandes, médios, curtos, sutis, grosseiros, visíveis e invisíveis, próximos e distantes, nascidos e por nascer: que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança!' Porque se deveria desejar, ‘Que ninguém engane ou despreze outrem, em nenhum lugar, ou devido à raiva ou inimizade deseje que alguém sofra. Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida, ama e protege o seu filho, o seu único filho, da mesma forma, abraçando todos os seres, cultive um coração sem limites.’ Porque alguém deveria ‘Com amor bondade para todo o universo, cultive um coração sem limites: acima, abaixo e em toda a volta, desobstruído, livre da raiva e da inimizade. Quer seja parado, andando, sentado, ou deitado, sempre que estiver desperto, cultive essa atenção plena?'"
Algumas vezes, também, as pessoas se perguntam como podemos desejar para os nossos inimigos "Que os meus inimigos possam estar bem, felizes e tranquilos. Que nenhum mal lhes aconteça; que eles não enfrentem nenhuma dificuldade; que eles não enfrentem nenhum problema; que eles sejam sempre bem sucedidos. Que eles também tenham paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida?"
Precisamos lembrar que praticamos amor bondade para a purificação das nossas próprias mentes, da mesma forma que praticamos a meditação para alcançar a iluminação. Ao desenvolver amor bondade interiormente poderei me comportar de maneira mais amigável, sem preferências, preconceitos, discriminação ou ódio. O meu nobre comportamento permite que eu auxilie os demais seres condicionados, da forma mais prática, para reduzir a sua dor e o seu sofrimento. São as pessoas compassivas que se comportam de forma suave e gentil para fazer com que as pessoas ao seu redor se sintam confortáveis. Compaixão é a manifestação do amor bondade em ação, pois quem não possui amor bondade é incapaz de ajudar os outros. Comportamento nobre significa portar-se da forma mais cordial e amigável possível. O comportamento inclui os pensamentos, linguagem e ações corporais. Se houver contradições nessa forma tríplice de expressar o nosso comportamento, então existe algo de errado nele. O comportamento contraditório não pode ser um comportamento nobre. Se alguém fala de amor bondade mas se comporta de uma forma grosseira, ele/ela é hipócrita não é honesto/a.
Por outro lado, falando em termos pragmáticos, é muito melhor cultivar o nobre pensamento, "Que todos os seres sejam felizes" do que o pensamento "Eu o odeio". O pensamento nobre irá definitivamente encontrar a sua expressão no nosso nobre comportamento e o nosso pensamento maldoso irá encontrar a sua expressão no mau comportamento.
Precisamos lembrar que os nossos pensamentos são transformados em linguagem e ação de modo a alcançar o resultado esperado. A intenção ou pensamento traduzido em ação é capaz de produzir um hormônio positivo no nosso cérebro. Esse hormônio positivo age como um nutriente que alimenta e fortifica os nossos nervos. Quando os nossos nervos são estimulados com esse hormônio positivo eles se fortalecem. Esse hormônio positivo será também transportado através do nosso corpo pela circulação sanguínea, fazendo com que as nossas células sejam saudáveis. Os nervos e células saudáveis fazem com que o nosso corpo e mente sejam fortes e saudáveis.
Devemos sempre falar e fazer as coisas com atenção plena no amor bondade. Se, enquanto fala de amor bondade, você age ou fala de uma forma diametralmente oposta, você será repreendido pelos sábios. Na medida em que a atenção plena no amor bondade se desenvolve, os nossos pensamentos, palavras e ações se tornam gentis, agradáveis, relevantes, verdadeiros e benéficos para nós, bem como para os demais. Se os nossos pensamentos, palavras ou ações causam dano para nós, para os outros, ou ambos, então precisamos nos questionar se realmente estamos plenamente atentos ao amor bondade.
Em termos práticos, se todos os seus inimigos estivessem bem, felizes e tranqüilos, eles não seriam seus inimigos. Se eles estiverem livres de problemas, dores, sofrimento, aflições, neuroses, psicoses, paranóias, temores, tensões, ansiedades, etc., eles não serão mais os seus inimigos. A sua solução prática para os seus inimigos é auxiliá-los a superar os problemas deles, de forma que você possa viver em paz e feliz. Na verdade, se você pudesse, você deveria preencher as mentes de todos os seus inimigos com amor bondade e fazer com que todos eles realizem Nibbana, assim você poderia viver em paz e feliz. Quanto mais neuroses, psicoses, temores, tensões, ansiedades, etc eles tiverem, tanto mais problemas, dores e sofrimento eles poderão causar ao mundo. Se você conseguir converter uma pessoa má e cruel em uma pessoa pura e santa então você terá realizado um milagre que o Buda nos permitiu realizar. Cultivemos a sabedoria e o amor bondade nas nossas mentes para converter as mentes más em mentes santas.
Bhante Henepola Gunaratana
Algumas vezes a prática da meditação de insight (vipassana) pode ser interpretada como sendo um tipo de prática que faz com que o meditador se torne um ser sem coração ou indiferente, como um vegetal que não possui amor e compaixão pelos outros seres vivos
Devemos, no entanto, lembrar que o Buda recomendou de maneira enfática que cultivemos quatro moradas divinas ou estados sublimes da mente: amor bondade (metta), compaixão (karuna), alegria altruísta (mudita) e equanimidade (upekha).
O primeiro desses quatro é tão importante que o Buda disse que alguém que dependa inteiramente de outras pessoas para viver (isto é, um monge ou monja) poderá pagar a sua dívida para com os seus patrocinadores através da prática de metta, dirigida a todos os seres vivos, mesmo que seja por um período de tempo tão curto quanto uma fração de segundo por dia.
O Karaniya Metta Sutta diz: "…sempre que estiver desperto, cultive essa atenção plena: a isto se denomina uma morada divina no aqui e agora."
A atenção plena é um dos fatores mais importantes em todo o conjunto dos ensinamentos do Buda. Desde o dia que ele alcançou a iluminação, até o dia em que ele faleceu aos 80 anos, em quase todos os discursos do Dhamma ele enfatizou a atenção plena. Ao equiparar a prática de metta à atenção plena podemos entender a importância dessa prática dentro do conjunto dos ensinamentos do Buda.
O Buda aperfeiçoou a prática de metta para alcançar a Iluminação, equilibrando-a com a sabedoria. Mesmo após haver alcançado a Iluminação, a primeira coisa que ele fazia todos os dias era penetrar a realização da Grande Compaixão, que é o fruto da prática de metta. Em seguida ele inspecionava o mundo para ver se havia seres que ele poderia auxiliar na compreensão do Dhamma.
Esses quatro estados sublimes da mente são denominados Brahma Vihara, o comportamento ideal ou atitude ideal. Os três primeiros possuem força suficiente para permitir alcançar os primeiros três jhanas e o último para alcançar o quarto jhana.
A sua importância na prática da meditação vipassana fica evidente pelo fato deles estarem incluídos no segundo elemento do Nobre Caminho Óctuplo. Na verdade, nenhuma concentração é possível sem esses estados sublimes da mente, porque na ausência deles a mente fica cheia de raiva, rigidez, preocupações, temores, tensão e inquietação.
Antes de nos dedicarmos à prática desses estados nobres da mente, devemos superar a raiva, que é uma maneira impensada de desperdiçar a própria energia. A raiva, quando ativa, se compara à água fervendo ou, quando não é expressa, ao preconceito.
Ela pode destruir a nossa prática de meditação e o treinamento das virtudes. A pessoa enraivecida se compara a um pedaço de lenha meio queimado deixado em uma pira funerária. Ambas as extremidades da lenha estão queimadas e transformadas em carvão e o meio está coberto com imundícies.
Ninguém pegaria esse pedaço de lenha para queimar ou para qualquer outro propósito porque ficaria com as mão imundas. Da mesma forma a pessoa enraivecida será evitada de todas as formas, se possível, por todos.
Precisamos começar a prática de metta com nós mesmos primeiro. Algumas vezes alguns de vocês podem se perguntar porque devemos amar a nós mesmos primeiro. Isso não seria amor próprio que conduz ao egoísmo? Se você investigar a sua mente cuidadosamente no entanto, irá se convencer de que não existe nenhuma outra pessoa em todo o universo que você ame mais do que você mesmo.
O Buda disse, “Tendo atravessado todos os quadrantes com a mente, ele não encontra em nenhum lugar alguém mais querido do que ele mesmo. Do mesmo modo, toda pessoa considera a si mesma como a mais querida; por conseguinte quem ama a si mesmo não deveria ferir os outros.” (Mallika Sutta).
Quem não ama a si mesmo será incapaz de amar aos outros. Da mesma forma, quem ama a si mesmo irá sentir o impacto de metta e poderá então compreender quão belo seria se todos os corações no mundo estivessem plenos com o mesmo sentimento de metta.
O tipo de amor bondade que queremos cultivar não é o amor comum tal como é entendido no uso diário. Quando você diz, por exemplo, "eu amo tal pessoa" ou "tal coisa", o que você realmente está querendo dizer é que você deseja a aparência, comportamento, idéias, tom da voz ou a atitude em geral daquela pessoa, em relação a você particularmente, ou em relação à vida de forma geral.
Se aquela pessoa mudar as coisas pelas quais você a deseja, você poderá decidir que não a ama mais. Se as preferências, caprichos e fantasias das pessoas mudarem, elas não mais dirão "eu amo tal pessoa".
Nessa dualidade de amor-ódio você ama uma pessoa e odeia outra. Você ama agora e odeia depois. Você ama quando quiser e odeia quando quiser. Você ama quando tudo está bem e sem problemas e odeia quando alguma coisa dá errado no relacionamento entre você e a outra pessoa.
Se o seu amor muda dessa forma de tempos em tempos, de lugar em lugar e de situação para situação, então o que você chama de "amor" não é metta mas sim desejo, cobiça ou luxúria - de nenhuma forma isso é amor.
O tipo de amor bondade que queremos cultivar através da meditação não possui um oposto ou um motivo velado. Assim, a dicotomia amor-ódio não se aplica ao amor bondade cultivado através da sabedoria ou da atenção plena, pois ele nunca irá se transformar em ódio à medida que as circunstâncias mudarem.
O verdadeiro amor bondade é uma faculdade natural que está oculta sob o amontoado de desejo, raiva e ignorância. Ele não pode ser dado. Nós precisamos encontrá-lo dentro de nós mesmos e cultivá-lo com a atenção plena.
A atenção plena o descobre, cultiva e mantém. A consciência do "eu" (ahankara) se dissolve com a atenção plena e o seu lugar é tomado pelo amor bondade isento de egoísmo.
Por causa do nosso egoísmo odiamos algumas pessoas. Queremos viver de certo jeito, queremos fazer certas coisas ao nosso modo, perceber as coisas de uma forma particular; e não de outro jeito.
Se outras pessoas não concordarem com as nossas opiniões, nossos jeitos e nossos estilos, não só as odiaremos, mas também nos tornaremos tão cegos e irracionais, devido à falta de atenção plena, que poderemos chegar ao ponto de negar-lhes o direito à vida.
Quando você pratica metta você não fica colérico por não receber algum tipo de retribuição de pessoas e seres para os quais você irradiou o seu metta, porque ao irradiar-lhes o seu amor bondade você não possuía nenhum motivo oculto.
Nessa rede de amor bondade você não somente inclui todos os seres tal como eles são, mas você deseja que todos eles, sem qualquer discriminação, sejam felizes.
Você irá se portar de maneira gentil e agradável para com todos e irá falar a respeito deles de forma gentil e agradável tanto na presença como na ausência deles.
Ao meditar as nossas mentes e corpos se tornam naturalmente relaxados. Os obstáculos são dissolvidos. A sonolência e o torpor por exemplo são substituídos pela vigilância. A dúvida é substituída pela confiança, a raiva pela alegria, a inquietação e a preocupação pela felicidade.
Na medida que o ressentimento é substituído pela alegria, o amor bondade escondido no nosso subconsciente se manifesta fazendo com que fiquemos ainda mais em paz e felizes. Nesse estado de meditação obtemos concentração e superamos a nossa cobiça.
Podemos ver como a meditação destrói a raiva e cultiva metta, que por seu lado dá sustentação para a nossa prática de meditação. Juntos, os dois operam em uníssono, culminando com a concentração e o insight.
Assim, para capturar na própria mente a energia do amor bondade a pessoa precisa se aperfeiçoar através da prática da meditação da atenção plena.
A observação atenta dos nossos estados mentais pode fazer com que tenhamos consciência do dano, destruição e dor causados por certos tipos de pensamentos. Enquanto que outros são cheios de paz e alegria.
Com isso, a nossa mente passa a rejeitar aquilo que é prejudicial e a cultivar o que é pacífico e prazenteiro. Não aprendemos isso nos livros, com mestres, amigos ou inimigos, mas através da nossa própria prática e experiência.
Quando os pensamentos prejudiciais surgem aprendemos a não lhes dar atenção e quando pensamentos benéficos surgem nós permitimos que eles se expandam e permaneçam por mais tempo na mente. Assim aprendemos com a nossa própria experiência como pensar de forma mais saudável.
Essa prática cria as condições na nossa mente para que o amor bondade cresça. Isso significa que pensamentos benéficos que surgem na nossa mente por si mesmos, podem ser gerados de acordo com a nossa própria vontade, mais tarde.
Essa prática nos ajuda a compreender que o amor bondade pode se desenvolver e crescer no fundo da nossa mente. Fatores ambientais ou circunstanciais desempenham um papel importante nesse cultivo. Nenhum ser humano está totalmente desprovido de amor bondade, não importa o quão cruel ele ou ela aparentem ser. O amor bondade escondido no subconsciente de cada pessoa deve ser trazido à tona através do desenvolvimento da habilidade da atenção plena.
"Mitra" na literatura védica e "Mitta" na literatura em Pali significam o sol. A natureza do sol pode ser chamada de "Maitri" ou "Metta". Maitri ou Metta também significam amor bondade ou amizade.
Talvez a razão porque o amor bondade seja assim chamado é porque gera sentimentos calorosos em relação a todos os seres. Da mesma forma como o calor vem do sol, aquele que possui amor bondade possui uma coração pleno de calor para com todos. Da mesma forma como o sol brilha sem discriminação sobre todos os objetos no mundo, "Metta" ou "Maitri" permeiam todos os seres sem qualquer discriminação.
Da mesma forma como o sol dissipa a escuridão, o amor bondade destrói a escuridão da raiva. Da mesma forma como alguns objetos absorvem melhor o sol do que outros, alguns seres vivos absorvem melhor o amor bondade do que outros. Os seres que absorvem mais amor bondade do que outros são aqueles que aprendem a relaxar devido ao seu Kamma.
O Buda cultivou metta tão potente que o fez amar o seu pior inimigo, Devadatta, que tentou matá-lo várias vezes. Ele amava o assaltante e assassino Angulimala, que também tentou matá-lo. Ele amava Dhanapala, um elefante que tentou matá-lo. Ele amava a todos da mesma forma como amava o seu filho Rahula. Quando Devadatta morreu, ao ir ter com o Buda, os monges perguntaram ao Buda qual seria o seu futuro. O Buda disse que no futuro ele se converteria num Buda silencioso. Assim é o amor bondade, guiado pela atenção plena, que nos permite viver em paz e harmonia.
O amor bondade ou metta não pode ser cultivado pela mera repetição de palavras de amor bondade. Esse tipo de repetição é muito parecido com a repetição de uma receita para um paciente num hospital ou de um cardápio para uma pessoa faminta em um restaurante. Repetir uma lista de coisas nunca irá produzir o resultado tangível das palavras da lista. O amor bondade é algo que tem que ser cultivado com intenção por nós mesmos nas nossas mentes.
O amor bondade é desenvolvido através da meditação. Quando a mente está relaxada, o meditador é capaz de perdoar e esquecer todas as ofensas que foram cometidas contra ele.
A pessoa pode praticar metta através da meditação da tranqüilidade (samatha). Mas isso não dura para sempre porque a tranqüilidade que é alcançada é apenas temporária.
O amor bondade cultivado através de vipassana, por outro lado, é perpétuo, porque os efeitos da meditação vipassana se enraízam profundamente na mente da pessoa. A meditação vipassana abranda a mente, e o amor bondade, cultivado em conjunto com o abrandamento da mente, irá lançar raízes profundas na mente.
Quem pratica a meditação vipassana vê a impermanência nas formas, sensações, percepções, formações mentais e consciência. Eles podem comparar as mudanças nesses agregados com aqueles das outras pessoas.
Dessa forma eles não vêm nenhuma pessoa ou coisa com ódio. Se eles perguntarem a si mesmos quem eles odeiam, eles não irão encontrar nenhum indivíduo para odiar. Da mesma forma, eles não encontrarão nenhum indivíduo pelo qual possam cultivar o amor bondade. Tudo que eles percebem é o fenômeno do fluxo contínuo dos eventos que ocorrem a cada momento, consigo mesmo e com os outros.
Isso os capacita a perdoar e esquecer as ofensas que outros agregados tenham cometido contra eles, ou seus amigos, ou parentes. A meditação de metta é o processo verdadeiro que genuinamente desenvolve as nossas nobres qualidades, que podem promover a paz e a felicidade. Não podemos inculcar amor bondade nas mentes das outras pessoas. Nem as outras pessoas podem fazer o mesmo conosco.
Você não poderá inculcar amor bondade em mim pela força se o meu Kamma impedir minha mente de aceitá-lo. Cada um de nós precisa preparar o terreno para que o amor bondade se desenvolva e cresça dentro da nossa mente.
Você também deve tê-lo dentro de si antes que possa ensiná-lo aos outros, da mesma forma como você não pode ensinar algo para alguém se você não conhecer o assunto primeiro.
Suponha que você tente ensinar algo para outras pessoas sem conhecer o assunto. Você irá passar por tolo. Quanto mais você conhecer o seu assunto, melhor será para ensiná-lo aos outros.
Da mesma forma, quanto mais treinada for a sua mente na disciplina do amor bondade, melhor será para ensiná-la ao mundo como cultivá-la. É óbvio que você não precisa esperar até que o seu aprendizado e treinamento estejam completos para iniciar o seu ensino.
Enquanto pratica o amor bondade você estará ganhando experiência prática. Você não poderá praticar no vazio. Tem que haver outros seres vivos para que você possa praticar de forma a ganhar experiência.
Portanto, ao mesmo tempo que você treina praticando o amor bondade, estará também treinando os outros nessa prática. Enquanto ensina você aprende. Enquanto aprende você ensina.
Até mesmo os Bodisatvas, enquanto se empenham com vigor na própria salvação, ajudam o mundo. A sua prática os auxilia a alcançar a iluminação primeiro, para assim serem capazes de ajudar o mundo a alcançar o mesmo objetivo.
Se eles ensinarem os outros a praticar o amor bondade sem que eles mesmos o pratiquem, eles não alcançarão a iluminação, nem serão capazes de ajudar os outros a praticar o amor bondade.
Cada um de nós precisa cultivá-lo por si mesmo e para si mesmo. Você não pode cultivá-lo pelos outros. Nem os outros podem cultivá-lo por você.
Se eu prometer salvá-lo praticando o amor bondade sem que você o pratique, então somente eu livrarei a minha mente da má vontade, pois não serei capaz de livrar a sua mente desse estado negativo.
Da mesma forma, se você cultivar o amor bondade para mim e eu cultivá-lo para você, então, ambos estaremos praticando. Eu não deveria esperar que você pratique o amor bondade por mim. Nem você deveria esperar que eu o pratique por você.
Se você disser, "Não pratique o amor bondade que eu o farei por você", isso não funciona. Não diga "Como posso cultivar amor bondade por tal pessoa que me odeia?" Se você odeia quem lhe odeia, ambos estarão fazendo o mal.
Ao fazer essa pergunta o que você está dizendo, em outras palavras é, "Como posso ser bom se os outros são maus?" Ou "Como posso evitar cometer crimes se os outros cometem crimes?" Você não pratica amor bondade porque os outros o cultivam. Você quer cultivá-lo justamente porque os outros não o cultivam.
Em última análise a prática do amor bondade depende do desenvolvimento espiritual e do Kamma da pessoa. As mentes de algumas pessoas possuem um Kamma tão desafortunado que para elas é quase impossível sonhar quanto à eficácia do amor bondade quanto mais praticá-lo, pois o seu Kamma impede que elas vejam o benefício do amor bondade.
Se você for ensinar uma classe de alunos irá notar que o desempenho dos alunos não é igual. Mesmo gêmeos idênticos possuem desempenhos distintos. A individualidade é a forma de expressar o desenvolvimento emocional, intelectual, físico e espiritual condicionado pelo Kamma da pessoa. Nem mesmo o Buda pode interferir no Kamma de uma pessoa. Nós não somos criados iguais, nascemos diferentes uns dos outros de acordo com o nosso próprio Kamma que divide os indivíduos com qualidades superiores e inferiores.
Se você praticar um ato com bom Kamma e desfrutar do seu resultado, eu não serei capaz de roubá-lo ou tomá-lo de você seja pela força ou por meios amigáveis. Se eu praticar o amor bondade para todos os seres poderei limpar a minha mente da raiva.
Assim a prática do amor bondade se manifesta no meu comportamento. Começar a prática do amor bondade é começar a prática de bom Kamma, pois nenhum bom Kamma pode ser praticado sem amor bondade.
Ao apresentar os Quatro Fundamentos da Atenção Plena o Buda disse aos meditadores que superassem a cobiça e a raiva e o motivo é que durante a prática da atenção plena o meditador irá encontrar muitos problemas com ambos, a cobiça e a raiva. Com freqüência as pessoas perguntam "Podemos eliminar a dor, o sofrimento e a raiva das outras pessoas através do cultivo interior de amor bondade?"
Até mesmo o Buda é incapaz de erradicar a dor e o sofrimento de outras pessoas desejando-lhes a paz e a felicidade. O Buda disse: "Você precisa trabalhar a sua própria salvação. Os Budas apenas ensinam".
Como cada indivíduo possui a sua parcela de Kamma, cada um tem que se dedicar para obter a sua própria salvação. Se pudéssemos eliminar o sofrimento dos outros desejando que eles se libertem da dor e do sofrimento, então fazer com que todo o mundo tivesse paz e felicidade seria muito fácil.
Se isso fosse possível então da mesma forma, também deveria ser possível que uma pessoa vingativa destruísse todos os seus inimigos desejando-lhes: "Que eles sejam feios, que eles sintam dores, que eles não sejam prósperos, que eles não sejam ricos, que eles não sejam famosos, que eles não tenham amigos e que eles após a morte renasçam em estados miseráveis de existência".
Na realidade, aqueles que fazem esses tipos de desejos inábeis é que poderão ficar feios, com dores, sem prosperidade, sem riqueza, sem fama, sem amigos e após a morte poderão renascer em um estado miserável de existência, porque eles cometem um Kamma ruim com a mente, por terem um desejo consciente cheio de raiva. Pensamentos ruins têm o poder de fazer com que os outros se sintam mal e bons pensamentos têm o poder de fazer com que se sintam bem.
Você pode se perguntar, "Se no sentido mais fundamental não existem seres, ou em nenhum sentido algum tipo de eu, ou se existem seres em um sentido condicional e a minha prática de amor bondade não elimina a sua dor e sofrimento, devido ao seu próprio Kamma, porque devo cultivar o amor bondade?"
Você deve se lembrar que quando a sua mente está cheia de pensamentos ruins ou pensamentos cheios de raiva por exemplo, você fala de uma forma rude com a linguagem grosseira, praguejando, difamando e caluniando. Você fala de forma maldosa.
Quando a sua mente está cheia de ódio, tudo que você vê gera dor; tudo que você ouve gera dor; tudo que você cheira gera dor; tudo que você come faz com que fique enfermo, tudo que você toca é desagradável para o corpo; e tudo que você pensa é doloroso.
Você se torna vingativo. Você sempre fala mal dos outros, nunca vê nada de bom nos outros. Você se torna muito crítico. Você sempre encontra defeitos nos outros. Você nunca aprecia as coisas boas que eles fazem.
Você estará enciumado todo o tempo. Você se torna muito arrogante, ingrato, malvado, com a mente muito mal intencionada. Você sempre pensa em causar dano aos outros. Você se delicia em ver os outros sofrerem, com problemas, com dificuldades.
Você fica muito feliz em ver os outros fracassarem na vida. Assim o seu comportamento ultraja as pessoas. Facilmente você faz com que as outras pessoas se sintam mal.
O seu comportamento será muito desagradável para as outras pessoas. Todos que estiverem ao seu redor sentirão nojo em ter que trabalhar com você. Elas ficarão com dor de estômago e dor de cabeça. Elas ficarão muito nervosas por estarem próximas de você. É assim que os seus pensamentos inábeis afetam as outras pessoas.
Por outro lado se a sua mente estiver plena com amor bondade, você irá falar de forma gentil, bondosa e amigável. Tudo que você ver será motivo para alegria; tudo que você ouvir será agradável. A sua comida terá um sabor melhor. Tudo que você tocar fará com que fique satisfeito. Tudo que você cheirar será agradável. Tudo que você pensar será muito agradável e tranqüilo. Você não medirá esforços para ajudar as outras pessoas. Você se tornará bastante compreensivo e circunspecto. Você terá muita paciência. Você se tornará muito amoldável. Você sempre dirá a verdade. Você sempre irá procurar agradar aos outros. Você estará preparado para esquecer o mal que lhe fizeram e perdoar as pessoas. Você sempre estará relaxado. Você não terá um riso falso e desnecessário, mas um sorriso amigável. Assim as pessoas irão amar trabalhar com você. Elas se sentirão confortáveis em sua companhia. As suas mentes também se tornarão suaves e gentis em relação a você. Elas protegerão você. Elas não falarão mal de você pelas suas costas mas, sim, bem. O seu nível de produtividade aumentará. A sua reputação aumentará.
Além disso, você poderá perguntar "Qual é o proveito de praticar o amor bondade para com todos os seres dizendo: ‘Todos os seres vivos que existem, fracos ou fortes, sem exceção, compridos, grandes, médios, curtos, sutis, grosseiros, visíveis e invisíveis, próximos e distantes, nascidos e por nascer: que todos os seres tenham os corações plenos de bem-aventurança!' Porque se deveria desejar, ‘Que ninguém engane ou despreze outrem, em nenhum lugar, ou devido à raiva ou inimizade deseje que alguém sofra. Tal qual uma mãe, colocando em risco a própria vida, ama e protege o seu filho, o seu único filho, da mesma forma, abraçando todos os seres, cultive um coração sem limites.’ Porque alguém deveria ‘Com amor bondade para todo o universo, cultive um coração sem limites: acima, abaixo e em toda a volta, desobstruído, livre da raiva e da inimizade. Quer seja parado, andando, sentado, ou deitado, sempre que estiver desperto, cultive essa atenção plena?'"
Algumas vezes, também, as pessoas se perguntam como podemos desejar para os nossos inimigos "Que os meus inimigos possam estar bem, felizes e tranquilos. Que nenhum mal lhes aconteça; que eles não enfrentem nenhuma dificuldade; que eles não enfrentem nenhum problema; que eles sejam sempre bem sucedidos. Que eles também tenham paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida?"
Precisamos lembrar que praticamos amor bondade para a purificação das nossas próprias mentes, da mesma forma que praticamos a meditação para alcançar a iluminação. Ao desenvolver amor bondade interiormente poderei me comportar de maneira mais amigável, sem preferências, preconceitos, discriminação ou ódio. O meu nobre comportamento permite que eu auxilie os demais seres condicionados, da forma mais prática, para reduzir a sua dor e o seu sofrimento. São as pessoas compassivas que se comportam de forma suave e gentil para fazer com que as pessoas ao seu redor se sintam confortáveis. Compaixão é a manifestação do amor bondade em ação, pois quem não possui amor bondade é incapaz de ajudar os outros. Comportamento nobre significa portar-se da forma mais cordial e amigável possível. O comportamento inclui os pensamentos, linguagem e ações corporais. Se houver contradições nessa forma tríplice de expressar o nosso comportamento, então existe algo de errado nele. O comportamento contraditório não pode ser um comportamento nobre. Se alguém fala de amor bondade mas se comporta de uma forma grosseira, ele/ela é hipócrita não é honesto/a.
Por outro lado, falando em termos pragmáticos, é muito melhor cultivar o nobre pensamento, "Que todos os seres sejam felizes" do que o pensamento "Eu o odeio". O pensamento nobre irá definitivamente encontrar a sua expressão no nosso nobre comportamento e o nosso pensamento maldoso irá encontrar a sua expressão no mau comportamento.
Precisamos lembrar que os nossos pensamentos são transformados em linguagem e ação de modo a alcançar o resultado esperado. A intenção ou pensamento traduzido em ação é capaz de produzir um hormônio positivo no nosso cérebro. Esse hormônio positivo age como um nutriente que alimenta e fortifica os nossos nervos. Quando os nossos nervos são estimulados com esse hormônio positivo eles se fortalecem. Esse hormônio positivo será também transportado através do nosso corpo pela circulação sanguínea, fazendo com que as nossas células sejam saudáveis. Os nervos e células saudáveis fazem com que o nosso corpo e mente sejam fortes e saudáveis.
Devemos sempre falar e fazer as coisas com atenção plena no amor bondade. Se, enquanto fala de amor bondade, você age ou fala de uma forma diametralmente oposta, você será repreendido pelos sábios. Na medida em que a atenção plena no amor bondade se desenvolve, os nossos pensamentos, palavras e ações se tornam gentis, agradáveis, relevantes, verdadeiros e benéficos para nós, bem como para os demais. Se os nossos pensamentos, palavras ou ações causam dano para nós, para os outros, ou ambos, então precisamos nos questionar se realmente estamos plenamente atentos ao amor bondade.
Em termos práticos, se todos os seus inimigos estivessem bem, felizes e tranqüilos, eles não seriam seus inimigos. Se eles estiverem livres de problemas, dores, sofrimento, aflições, neuroses, psicoses, paranóias, temores, tensões, ansiedades, etc., eles não serão mais os seus inimigos. A sua solução prática para os seus inimigos é auxiliá-los a superar os problemas deles, de forma que você possa viver em paz e feliz. Na verdade, se você pudesse, você deveria preencher as mentes de todos os seus inimigos com amor bondade e fazer com que todos eles realizem Nibbana, assim você poderia viver em paz e feliz. Quanto mais neuroses, psicoses, temores, tensões, ansiedades, etc eles tiverem, tanto mais problemas, dores e sofrimento eles poderão causar ao mundo. Se você conseguir converter uma pessoa má e cruel em uma pessoa pura e santa então você terá realizado um milagre que o Buda nos permitiu realizar. Cultivemos a sabedoria e o amor bondade nas nossas mentes para converter as mentes más em mentes santas.
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